Setembro Amarelo soma esforços na prevenção do suicídio
No mês dedicado ao tema, Rodolfo Damiano, autor de “Compreendendo o Suicídio”, alerta para a necessidade de ação permanente e para a influência das redes sociais
SHEILA GRECCO
29/08/2025 12h29 - Atualizado há 7 horas
Crédito: Freepik
Movimento em defesa da vida. Esse é o espírito do Setembro Amarelo, mês de conscientização sobre a prevenção do suicídio. Uma silenciosa epidemia de dor e sofrimento que acomete mais de 700 mil pessoas por ano no mundo. Considerando a subnotificação, a estimativa passa de 1 milhão de ocorrências. Números alarmantes que revelam uma realidade: mais pessoas morrem por suicídio do que em decorrência de guerras e homicídios ou de doenças como malária, câncer de mama e Aids. O mês de setembro é apenas um convite, a prevenção, como revelam as estatísticas, precisa acontecer o ano inteiro. A mobilização de setembro tem origem comovente. Em 1994, nos Estados Unidos, um estudante de 17 anos chamado Mike Emme cometeu suicídio. A cor amarela foi escolhida em homenagem ao Mustang 68 que ele, com habilidades com mecânica, havia restaurado e pintado. No dia do velório, amigos e familiares distribuíram cartões decorados com fitas amarelas contendo a mensagem: "se você precisar, peça ajuda". Desde então, o laço amarelo tornou-se símbolo mundial da luta contra o suicídio. O 10 de setembro foi estabelecido como o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio pela Associação Internacional para a Prevenção do Suicídio e reforçado pela OMS. Setembro Amarelo marca o calendário, mas a prevenção do suicídio não pode esperar. O cuidado precisa atravessar os 365 dias do ano. "Não basta pintar um mês de amarelo: a prevenção do suicídio precisa estar viva todos os dias. É um problema de saúde pública que pode e deve ser prevenido. No mundo, são cerca de 700 mil mortes por ano e aproximadamente 14 milhões de tentativas. No Brasil, isso representa em torno de 14 mil vidas perdidas e perto de 280 mil tentativas a cada ano. É um chamado a políticas contínuas, acesso real ao cuidado e acolhimento sem estigma — do primeiro ao último dia do ano", defende o médico psiquiatra Rodolfo Damiano, membro da Associação Brasileira de Psiquiatria e autor de obras fundamentais sobre o assunto, como Compreendendo o Suicídio e Cansei de Viver, e Agora?. No Brasil, o cenário é ainda mais preocupante. Segundo o Ministério da Saúde, o país tem a maior prevalência de depressão na América Latina, atingindo cerca de 15,5% da população. Indivíduos com depressão apresentam oito vezes mais chances de cometer suicídio. São cerca de 14 mil brasileiros que tiram a própria vida a cada ano, uma média devastadora de 38 mortes por dia. O país está na contramão das estatísticas globais, com um aumento de 57% na taxa de suicídios entre 2000 e 2019. O fenômeno do suicídio é complexo e multifatorial. Entre os fatores de risco estão transtornos mentais como depressão, transtorno bipolar, dependência de álcool e outras drogas, além de traumas e violências. No sexo feminino, o boletim do Ministério da Saúde aponta que transtornos alimentares, transtorno bipolar, estresse pós-traumático e problemas de relacionamento interpessoal aparecem com frequência. Entre homens, destacam-se sentimentos de desesperança, separação parental e influência de comportamentos suicidas dos pares. A prevenção vai muito além do tratamento de transtornos mentais. "Precisamos falar também sobre o que protege e fortalece: vínculos afetivos genuínos, senso de propósito, momentos de alegria e realização, conexões sociais significativas. Nem todo paciente com transtorno mental desenvolverá comportamento suicida, assim como pessoas sem diagnóstico psiquiátrico podem estar em risco. O que faz a diferença muitas vezes são os fatores protetivos — ter alguém com quem contar, sentir-se útil e valorizado, cultivar esperança, encontrar significado mesmo em meio às dificuldades", explica o médico psiquiatra Rodolfo Damiano. A construção de resiliência emocional, o desenvolvimento de habilidades para lidar com frustrações e a presença de uma rede de apoio são elementos fundamentais que podem fazer a diferença entre o desespero e a superação. O ambiente digital emerge como fator de risco crescente para pensamentos e comportamentos suicidas. O Brasil está entre os países com maior tempo médio diário nas redes sociais e 93% dos adolescentes brasileiros estão conectados a essas plataformas. Não se trata apenas de "tempo de tela": padrões de uso aditivo e exposição a conteúdos nocivos afetam o sono, a autoimagem e a regulação emocional, ampliando a vulnerabilidade em cérebros ainda em desenvolvimento. "A sobrecarga de estímulos digitais interfere na regulação natural dos neurotransmissores dos adolescentes. Estudos demonstram que trajetórias de uso aditivo de redes sociais e celulares — especialmente aquelas que se intensificam a partir dos 11 anos — mais que dobram o risco de comportamentos suicidas. Os algoritmos foram programados para maximizar engajamento e acabam explorando vulnerabilidades psicológicas preexistentes em personalidades em formação, especialmente adolescentes em busca de aceitação e pertencimento social", alerta Damiano, pesquisador e professor do programa de pós-graduação do Instituto de Psiquiatria da USP, onde coordena o ambulatório de Depressão Resistente ao Tratamento, Autolesão e Suicidalidade. Por diversas razões históricas, culturais e até religiosas, o suicídio foi tratado ao longo dos tempos como algo a ser escondido, uma vergonha e até um crime. Na Grécia Antiga, era visto como rebelião contra os deuses. No século XVII, na França, havia julgamentos para o "autoassassinato". Ainda hoje, o tema é cercado por tabu e estigma. Mas o suicídio pode ser prevenido — e a prevenção não se resume apenas a identificar e tratar doenças. "Prevenir significa também promover o que há de melhor em nós: fortalecer laços de amizade e amor, cultivar gratidão, celebrar pequenas vitórias, encontrar beleza no cotidiano, desenvolver compaixão por si mesmo e pelos outros. São essas experiências positivas que constroem nossa reserva emocional para os momentos difíceis", ressalta Damiano. É preciso estar atento aos sinais de alerta e investir ativamente no que gera bem-estar: reduzir barreiras de acesso não apenas a tratamentos, mas também a experiências significativas; qualificar a comunicação nas redes para que seja fonte de inspiração e não só de comparação; fortalecer vínculos autênticos na família, escola e comunidade; formar profissionais que enxerguem o ser humano integral, não apenas seus sintomas; e garantir políticas públicas que promovam qualidade de vida, não apenas campanhas sazonais. De tratamentos medicamentosos e psicoterápicos até mudanças no estilo de vida que incluam exercícios, arte, espiritualidade e conexão com a natureza, muito pode ser feito. O silêncio é o maior inimigo da prevenção e a esperança, sua maior aliada. Se você ou alguém próximo estiver em sofrimento, procure ajuda: Centro de Valorização da Vida (CVV): 188 (24 horas, ligação gratuita), serviços de emergência: SAMU (192) e Bombeiros (193). Sobre o médico psiquiatra Rodolfo Damiano (CRM-SP 190.747 | RQE 95.585): O cuidado pelo outro com excelência. Essa é a missão do médico paulista Rodolfo Damiano, psiquiatra, palestrante, escritor, professor e pesquisador. Com 32 anos e 6 livros publicados, aliando ciência e humanidade, teoria e prática, diálogo franco e tecnologia, Rodolfo já é referência, no Brasil e no exterior, em pesquisas nas áreas de ansiedade, depressão, TDAH, Covid-19 e prevenção ao suicídio. Médico psiquiatra e doutor pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), pós-doutorando em Psiquiatria pela USP, em parceria com Yale University e Ohio State University (EUA). É professor do programa de pós-graduação do Instituto de Psiquiatria da USP, onde também coordena o ambulatório de Depressão Resistente ao Tratamento, Autolesão e Suicidalidade. Editor associado do Brazilian Journal of Psychiatry. CEO da Soul Clinic, no Rio de Janeiro, centro de medicina integrativa, e cofundador da Imensamente, plataforma de cursos em psiquiatria e saúde mental. Autor de Você Pode Amar e Ser Feliz (DISRUPTalks, 2024) e Cansei de Viver, e Agora? (Manole, 2024), e editor de Compreendendo o Suicídio (Editora Manole, 2021), Spirituality, Religiousness and Health (Springer, 2020), dentre outros. Voluntário da ONG Fraternidade sem Fronteiras, tendo participado de missões em Manaus (AM) e Madagascar e Malaui, na África. O amor transformando vidas, histórias e trajetórias. E a felicidade, tema central de seus estudos, a vitamina do corpo e da alma. rodolfodamiano.com Instagram: @dr.rodolfodamiano Notícia distribuída pela saladanoticia.com.br. A Plataforma e Veículo não são responsáveis pelo conteúdo publicado, estes são assumidos pelo Autor(a):
Sheila Grecco de Oliveira Neves
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