Da Bahia, francesa Djeliah defende as origens da música africana em disco que apela à existência e à crítica da sociedade global

A artista radicada na Chapada Diamantina é voz da África Ocidental em solos europeus e americanos. O álbum "The Sun is Rising", disponível nas plataformas à partir deste 29 de agosto, tem influências incontestáveis de nomes como Bob Marley, Fela Kuti, Nina Simone e Erykah Badu.

MATHEUS LUZI
29/08/2025 14h55 - Atualizado há 12 horas

Da Bahia, francesa Djeliah defende as origens da música africana em disco que apela à existência e à crítica
Capa do álbum - Crédito: Álvaro Henrique 

Jazz, soul, funk, reggae e afrobeat, aqueles produzidos por nomes emblemáticos como Bob Marley, Fela Kuti, Nina Simone, Erykah Badu, Billie Holiday e Céu,  essa é a estética que colore o segundo álbum da francesa radicada no Brasil, Djeliah (Julie Monin), intitulado “The Sun is Rising”, que chega neste 29 de agosto às plataformas de streaming. O álbum é apresentado com doze faixas autorais e inéditas. Ela divide a produção musical com Gustavo Filograsso e Pablo Rosas (conhecidos pelo projeto Passagem Universo), parceiros criativos que trouxeram um som orgânico gravado na Chapada Diamantina durante a pandemia.  

Artista nascida na França e atualmente estabelecida na Chapada Diamantina, na Bahia, Djeliah é também terapeuta holística e pioneira no ensino de Theta Healing no Brasil. Uma colecionadora de referências culturais, a compositora privilegia mensagens de consciência, otimismo e liberdade espiritual.  

Não é apenas um disco, é uma homenagem à música consciente, à espiritualidade e à cultura africana, propiciando um som variado e, ao mesmo tempo, maduro. São canções baseadas em suas experiências reais e pessoais. Djeliah pontua que “as canções levam o ouvinte a cenários introspectivos: da busca pela paz interior à crítica social global, da liberdade individual à reflexão sobre a nossa própria origem”. Cada faixa é uma nova descoberta, um convite a despertar a consciência e se deixar levar por harmonias que evocam direta e indiretamente os nomes, obras e nuances de Bob Marley, Fela Kuti, Nina Simone, Erykah Badu, Billie Holiday e Céu.” A faixa Mama África conta com a participação especial de Momi Maiga * na kora (harpa africana), músico senegalês radicado na Catalunha, que integrou projetos com Youssou N’Dour e Seckou Keita. O álbum conta também com participações de vários músicos talentosos residentes da Chapada Diamantina, como Luciano Menderete (Argentina / Brasil) no teclado e piano, Frodo Leonardo (Brasil) na guitarra e outros residentes na França como Carlos Bitencourt (Peru / França) ou Cote Calmet (França).  

Momi Maiga é uma das vozes mais marcantes de uma nova geração de artistas da África Ocidental na Europa. Nascido em Casamansa, na renomada família griot Cissokho, começou a tocar kora (harpa africana) aos seis anos de idade e, desde então, desenvolveu uma linguagem musical única que mescla as tradições mandés com jazz, flamenco e música clássica. Com uma presença de palco cativante e profunda expressão emocional, realizou turnês pela Europa e colaborou com artistas como Youssou N’Dour, Jordi Savall, Seckou Keita e Amaro Freitas. Seu último álbum, KAIRO (2024), foi premiado como Melhor Álbum Não Catalão no Enderrock Awards 2025. 

Escute "The Sun is Rising" nas plataformas digitais 

 

Faixa a faixa 

A faixa de abertura, “The Sun is Rising”, captura a essência de um renascimento pessoal, evocando a sensação de um novo dia ao lado de alguém especial que desperta mundos internos. Inspirada pela luz do sol invadindo o quarto, a música simboliza a entrada da arte na vida da artista. Com arranjos leves e vocais harmoniosos, ela transmite otimismo e harmonia perfeita, ideal para iniciar o álbum.  

“Nobody” mergulha no jazz clássico, ecoando o estilo de Billie Holiday, a canção celebra a “anti-heroína” que rejeita fama e riqueza em favor da autenticidade, culminando no refrão que afirma o valor supremo de ser único. Sua sonoridade intimista, com influências familiares herdadas de um avô músico de jazz, destaca a singularidade de cada expressão artística, tornando-a uma reflexão profunda sobre identidade e liberdade em um mundo materialista.  

“The One” explora a vulnerabilidade da carência emocional, retratando a criança interior que implora por amor e atenção. Com uma abordagem crua e humana, a faixa reflete o desejo primário por afeto, que transcende até a necessidade de alimento, e serve como um espelho para a busca interna por completude. Sua melodia soulful e introspectiva captura a essência do desespero que leva ao autodescobrimento, posicionando o ato de cantar como uma forma de reivindicar espaço e valor pessoal.  

“Be the One” atua como antídoto à faixa anterior, incentivando o ouvinte a se tornar seu próprio grande amor e a abraçar a completude interna. Inspirada no afrobeat da cultura iorubá nigeriana, com ritmos alegres e dançantes que evocam entidades da natureza como no candomblé, a música promove a liberação da alma e do corpo. Ela reforça mensagens espirituais de conexão com a Fonte divina e convida a uma celebração da verdadeira identidade contra domínios mentais opressores.  

“We Are the War” faz uma alusão a “We Are the World” de Michael Jackson, criticando a persistência de conflitos globais e a responsabilidade coletiva pela destruição. Incorporando práticas espirituais como o Ho’oponopono para “corrigir erros” internos como o medo da escassez e a ganância, a faixa destaca a ilusão da separação e a dualidade humana. Sua sonoridade reflexiva e urgente serve como chamado para transformar guerra em unidade e reconhecer que somos os criadores de nossa realidade.  

“Humanity” aborda a dualidade extrema da ganância humana, representada pela bomba atômica como símbolo de destruição total versus criação divina. Explorando o livre-arbítrio e a escolha entre criar ou destruir, a canção reflete sobre investimentos bilionários em armas em detrimento de justiça social, saúde e educação. Com uma narrativa cósmica que sugere lições evolutivas de catástrofes passadas, ela equilibra alerta e esperança, enfatizando a liberdade inerente à humanidade em meio à sua própria sombra.  

“A Revolution” é um spoken word poético, composto há 20 anos, mas mais relevante que nunca hoje em sua crítica ao sistema social como uma “grande mentira”. Com uma entrega que ressoa verdade e resistência espiritual, a faixa incentiva a liberdade individual. Sua estrutura minimalista amplifica a mensagem de revolução interna, posicionando a artista como voz para aqueles que sentem o peso da opressão e buscam autenticidade em um mundo de ilusões.  

“Whatever” assume um tom dramático, quase operístico, com violinos staccato evocando tragédia para confrontar vozes internas e externas que diminuem o eu. A canção é um grito de afirmação divina, rejeitando definições alheias e reivindicando poder pessoal. Sua intensidade sonora reflete a luta por autodefesa, transformando fantasmas do passado em uma declaração de soberania espiritual. 

“Mama África” expressa uma conexão de alma profunda com o continente africano, servindo como um mea-culpa positivo contra o racismo e a exploração colonial. Com partes em francês para destacar a hipocrisia da imagem romântica da França, a faixa empodera afrodescendentes ao celebrar a riqueza cultural e ancestral da África como berço de civilizações. Compartilhando título com a obra de Chico César por coincidência feliz, sua sonoridade afrobeat com kora (harpa africana) homenageia origens primordiais, combatendo manipulações de representações que perpetuam opressão.  

“Rainy Night” mergulha na tristeza de relacionamentos aprisionados por convenções sociais, retratando a dor de ver um amor infeliz em um casamento por comodismo. Inspirada em experiências pessoais, a canção crítica jogos sociais e defende a liberdade, mesmo a um custo alto. Sua melodia melancólica e sincera captura a vulnerabilidade de ser “real” em uma sociedade que prioriza aparências, tornando-a uma reflexão íntima sobre o preço da autenticidade.  

“A Place to Be” funciona como uma oração de manifestação, invocando um espaço na Terra para amor, criação e felicidade. Afirmando o merecimento divino, a faixa transmite otimismo mágico e espiritualidade prática. Sua sonoridade leve e reflexiva reforça a ideia de que, ao se sentir merecedor, o universo responde, tornando-a um hino de gratidão e abundância.  

“Loosing or Not” questiona métricas sociais de sucesso, defendendo o caminho espiritual como uma desmaterialização que leva à verdadeira vitória interna. Taxada de “perdedora” por rejeitar acumulação material, a cantora inverte a narrativa ao perguntar “quem é o rei nessa multidão?”, celebrando a proximidade com o eu autêntico como riqueza inabalável. Com um tom rebelde e beatbox inovador, ela equilibra crítica social e empoderamento.

 

Sobre DJELIAH 

Djeliah, é uma artista francesa que há 15 anos escolheu o Brasil como lar. Atualmente mora na Chapada Diamantina, na Bahia. Conhecida como cantora, compositora e terapeuta holística, sua trajetória musical começou em Londres, onde explorou o Garage Band para criar camadas vocais e beats, culminando em um processo de cura pessoal que a levou a abraçar a arte como missão de vida. 

Influenciada pelo jazz – graças ao avô músico de jazz, ao pai apaixonado pelo gênero e também um festival de jazz importante que ela frequentou desde a infância na cidade natal (Jazz à Vienne) e exposições a pop dos anos 80, Djeliah construiu uma sonoridade eclética que abrange jazz, soul, funk, reggae e afrobeat. Após morar em Barcelona, onde ela atuou como backing vocal numa banda de reggae, e trabalhar em uma gravadora em Londres, ela compôs a maioria das faixas de “The Sun is Rising” entre 2005 e 2009, refinando-as ao longo de anos. 

A artista traz uma carreira marcada por coragem e autenticidade, com apresentações em Londres, Chapada Diamantina e São Paulo, e uma visão de promover paz e consciência global. Inspirada por ícones como Bob Marley e Fela Kuti, ela usa a música para conectar o íntimo ao universal. Com uma turnê nacional planejada para novembro em Rio, São Paulo e Belo Horizonte, Djeliah segue consolidando-se como voz singular na cena artística brasileira e internacional.  

 

Ficha Técnica 

The Sun is Rising: Pablo Rosas, Gustavo Filograsso (guitarra, baixo) Julie Monin: voz  

Nobody: Arranjos: Pablo Rosas, piano: Luciano Menderete, Contrabaixo: Carlos Betancourt, Bateria: José Enrique Calmet; voz: Julie Monin  

Be The One: Arranjos: Pablo Rosas, Guitarra e baixo: Gustavo Filograsso, Bateria: Gustavo Rocha, Djembé: Vinicius José  

The One: Arranjos: Pablo Rosas, Piano: Luciano Menderete, Contrabaixo: Carlos Betencourt, bateria: Jose Enrique Calmet; Conga: Jesus Santiago Rubia, voz: Julie Monin  

Mama Africa: Guitarra: Leonardo Frodo, guitarra: Pablo Molina, Kora: Momi Maïga, Voz: Julie Monin, Percussão e baixo: Gustavo Filograsso 

Place to Be: arranjos: Pablo Rosas, guitarra e baixo: Gustavo Filograsso, Voz: Julie Monin  

Whatever: Violin: Thiago Gusmão, produção: Pablo Rosas e Gustavo Filograsso, Piano: Luciano Menderete, Voz: Julie Monin  

Loosing or not: Beatbox: Caio Motta, voz: Julie Monin, produção: Gustavo Filograsso  

Humanity: produção: Pablo Rosas e Gustavo Filograsso, guitarra e baixo: Gustavo Filograsso, Voz: Julie Monin  

Revolution: produção: Pablo Rosas e Gustavo Filograsso, guitarra e baixo: Gustavo Filograsso, Voz: Julie Monin  

Rainy Night: Piano: Luciano Menderete, voz: Julie Monin, Produção: Gustavo Filograsso  

We are the War: produção: Pablo Rosas e Gustavo Filograsso, guitarra e baixo: Gustavo Filograsso, Voz: Julie Monin 

  

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DJELIAH em foto de Álvaro Henrique 


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Matheus Ferreira Luzi Neto
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