A Mitre Galeria apresenta, a partir de 30 de agosto, Cálculo para beijar o magma, exposição inédita da artista mineira Luana Vitra, em São Paulo. Com texto crítico da pesquisadora Ariana Nuala, a mostra reúne esculturas, desenhos e colagens que observam os limites entre corpo e materialidade. A abertura acontece em plena semana da SP-Arte Rotas, um dos momentos mais pulsantes do calendário das artes na capital paulista.
O ferro é o eixo central da pesquisa de Vitra – elemento vital presente no corpo humano, responsável por transportar oxigênio via hemoglobina, e também nas estrelas, que o geram até seu colapso em supernovas ou buracos negros. Em suas mãos, o ferro deixa de ser apenas matéria-prima: torna-se elo entre vida, natureza, ciência e cosmos.
Ao mesmo tempo, o material carrega o peso histórico de Minas Gerais, terra natal da artista, onde a mineração, desde o período colonial, estrutura economias e territórios por meio da extração e da violência. Ao incorporá-lo em suas obras, Vitra tensiona essa herança, deslocando o minério de mercadoria e resíduo, para corpo vivo e relacional, carregado de memórias, histórias e forças que resistem ao esgotamento.
Dentre as obras, destaca-se conceitualmente a investigação da artista entre o bico do pássaro e o centro magnético da terra. Alguns pássaros possuem magnetita em seu bico, e essa pedra é inteiramente composta de ferro, e quando em movimento migratório, é a relação entre o ferro presente do bico dos pássaros e o ferro que cria o campo magnético terrestre em seu núcleo, que orienta a direção do voo. Então o ferro aqui se torna bússola, mas também se desdobra em afetividade, pois a partir desse fenômeno físico a artista fabula que todo movimento migratório do pássaro vai na direção do seu desejo de beijar o núcleo da terra.
A exposição revisita trabalhos que marcaram sua trajetória, como Pulmão da mina (35ª Bienal de São Paulo, 2023) e Amulets (SculptureCenter, Nova York, 2025), onde a presença do pássaros, seja através das penas, dos pássaros de prata e cobre, ou dos rótulos das caixas de wagi, se afirmaram como existências importantes para pensar a relação com os metais. Vitra traz um conceito da física quântica denominado Emaranhamento quântico, que diz respeito a presenças que estão intimamente interligadas, onde se torna impossível explicar a existência de uma, sem citar a outra, mesmo que estejam separadas a milhões de anos luz. Para Vitra, talvez seja esse tipo de relação que existe entre a vida do pássaro e a do metal.
Segundo Ariana Nuala, “a obra de Vitra não se limita a paralelos poético-científicos. Ela insiste em dar voz às forças não humanas, reconhecendo que a política não é monopólio do humano, mas também se joga nos regimes da matéria e da energia. Nesse horizonte, suas esculturas não podem ser lidas como representações, mas como ativações. Seus gestos escultóricos coreografam partículas, poeiras, respirações e gravidades. Os pássaros são condutores máximos: seus bicos carregam oralidades e vibrações”.
Cálculo para beijar o magma reafirma Luana Vitra como uma das vozes mais potentes da nova geração da arte brasileira – uma artista que transforma o mineral em movimento, o território em corpo e o invisível em presença.
Sobre a artista
Luana Vitra (Contagem, MG, Brasil, 1995) nasceu e cresceu no estado de Minas Gerais, numa região conhecida por paisagens naturais monumentais e marcada profundamente pelas atividades industriais da mineração. Experimentou desde sempre, portanto, as diversas manifestações possíveis do ferro e da fuligem. Gestada entre a marcenaria — pelo lado do pai — e o manejo das palavras — pela parte da mãe —, sua prática parte de processos que reconhecem as qualidades físicas e os contornos sutis da matéria, e investigam a infusão psicoemocional das paisagens. A partir de composições realizadas com uma ampla gama de materiais, seus objetos e instalações reconfiguram símbolos universais e elaboram outros, especialmente investidos nas qualidades da matéria, evocando poesia, discutindo subjetividades e suscitando questionamentos políticos.
Sobre a Mitre Galeria
A Mitre Galeria, fundada em 2023 por Rodrigo Mitre, surgiu com o compromisso de contribuir para um imaginário social diversificado e efervescente no Brasil, e com a firme crença na prática artística como um motor chave para a transformação positiva do indivíduo e da sociedade. A galeria vem articulando propostas que ativam o cenário das artes contemporâneas em Minas Gerais, no Brasil e além, com um grupo de artistas de diferentes gerações, formações e práticas. Com um programa baseado em invenções estéticas que mudam perspectivas, provocando um reexame do passado e da imaginação do futuro, ao mesmo tempo que nos ancoram nas questões do presente, Mitre reafirma a sua busca por iniciar ações instigantes que nos conduzam ao desconhecido, abraçando o mistério como uma força vital.
O ano de 2023 consolida a projeção global da galeria com a participação em importantes feiras e exposições. Entre elas, a exposição individual de Marcos Siqueira na Frieze, em Nova York, e a presença de destaque das artistas Luana Vitra na 35a Bienal de São Paulo e Isa do Rosário na Bienal de Liverpool. Em 2024, a galeria participou pelo segundo ano consecutivo da Frieze NY com um estande solo do artista davi de jesus do nascimento.
Em 2025, a galeria inaugura sua sede em São Paulo, no bairro dos Jardins, reafirmando sua presença no cenário artístico brasileiro. O novo espaço nasce com o propósito de ampliar o alcance de seu programa, conectando-se de forma mais direta com novos públicos. No mesmo ano, a galeria participa de importantes feiras internacionais, como Frieze New York, EXPO Chicago e Frieze London, consolidando sua atuação no circuito nacional e expandindo sua projeção global.
Serviço:
Luana Vitra – Cálculo para beijar o magma
Local: Mitre Galeria
Endereço: R. da Consolação, 2761, Jardins - São Paulo SP, 01416-001, Brasil
Abertura: 30 de agosto, das 11h às 18h
Período expositivo: 1 de setembro à 30 de outubro
Horários: de segunda a sexta-feira, das 10 às 19h | Sábados, das 10 às 16h
Mais informações: mitregaleria.com | @mitregaleria
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BRUNA FERNANDA LIRA OLIVEIRA
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