Oftalmologia na Baixada: inclusão, tecnologia e cuidado humanizado
Fundada por médica que começou sozinha em uma sala de 20m², unidade já transformou a realidade de jovens da periferia no mercado de trabalho e atendeu mais de 190 mil pacientes
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Em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, uma clínica oftalmológica fundada há 25 anos se tornou referência regional não apenas pelo número de atendimentos — mais de 190 mil — mas pelo que construiu fora das salas de exame: um modelo de gestão que combina educação, tecnologia, formação de jovens e atenção humanizada à saúde. Criada pela médica Kátia Mello, a clínica nasceu de forma modesta, com poucos equipamentos, nenhuma estrutura empresarial e o desafio de romper barreiras geográficas, sociais e de gênero.
“Eu ouvia que mulher jovem não ia aguentar o tranco. Que ninguém procurava especialista na Baixada. Que saúde era coisa pra grandes centros. E que eu devia me contentar com um consultório simples, atendendo convênio. Eu ouvia e seguia”, relembra a fundadora.
Hoje, a unidade — que cresceu de uma sala de 20 metros quadrados para um centro clínico com tecnologia de ponta — se consolidou como um caso de impacto comunitário, inovação na saúde e inclusão profissional. E acaba de receber o Prêmio Sebrae Mulher Empreendedora, por seu modelo pioneiro de gestão integrada.
Sem recursos para contratar equipes completas nos primeiros anos, a solução encontrada foi treinar moradores da própria região. O que parecia improviso virou um dos pilares do projeto: um centro de formação interno, que capacita jovens em situação de vulnerabilidade para atuarem em diversas áreas da saúde, desde recepção e atendimento até apoio técnico e administrativo. Muitos desses jovens tiveram ali seu primeiro emprego formal.
Além do cuidado com pessoas, a clínica também tem se destacado pela adoção de tecnologias médicas avançadas, como prontuário eletrônico, exames com inteligência artificial e protocolos próprios para triagem de doenças oculares — especialmente voltados à população idosa.
A fundadora é pós-graduada em oftalmogeriatria e liderou a criação de fluxos internos que permitem detectar precocemente condições como glaucoma, catarata e retinopatia diabética, em pacientes acima dos 60 anos. “A inteligência artificial ajuda, mas o que faz diferença é a escuta. O tempo. O olhar atento”, afirma Kátia.
Com a população brasileira envelhecendo rapidamente, especialmente em regiões onde o acesso à medicina preventiva é escasso, o trabalho desenvolvido na Baixada ganha relevância nacional. “Tem idoso que nunca foi ao oftalmologista. Quando chega aqui, vem com medo, vergonha e muitas vezes sem saber que está perdendo a visão há anos”, diz o gerente financeiro Fábio Leite.
Mais do que números, a clínica se fortaleceu como um espaço de histórias. Como a de Dona Cleusa, paciente que chegou praticamente cega após 10 anos sem acesso a tratamento adequado. Após ser submetida a exames e encaminhada para cirurgia, voltou a enxergar. “Ela me disse: ‘Voltei a viver’. E a estagiária que a atendeu pela primeira vez chorava junto”, lembra um dos profissionais da equipe.
Casos como esse se repetem com frequência. “Nosso desafio nunca foi só técnico. Foi mostrar que é possível fazer medicina de ponta, com calor humano e impacto social — mesmo longe dos centros tradicionais”, resume a médica.
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ANA LUISA DA ROCHA LIMA
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