Artigo de opinião - “Você realmente conhece seu filho?”
KASANE COMUNICAÇÃO
03/04/2025 15h04 - Atualizado há 17 horas
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A série britânica Adolescência, recém-lançada pela Netflix, bateu recorde de público em sua estreia, figurando entre os conteúdos mais assistidos da plataforma em diversos países. Com uma narrativa intensa e provocadora, a trama acompanha Jamie, um adolescente de 13 anos acusado de assassinar uma colega. Mais do que um drama policial, a série se torna um espelho desconfortável da realidade: o peso emocional que os jovens carregam, muitas vezes em silêncio. Em sua rede social, o comediante e escritor Hélio de La Peña provocou pais e responsáveis com uma pergunta que não sai da cabeça de quem assiste: "Você realmente conhece seu filho?" A comparação é inevitável: na geração passada, ser adolescente significava estar na rua jogando bola, andando de bicicleta, passando bilhetes em sala de aula e aprendendo com pequenos tropeços da convivência direta. As dificuldades existiam, mas os riscos eram mais visíveis, mais próximos e, de certa forma, mais compreendidos pelos adultos. Hoje, a adolescência acontece em um universo muito mais complexo, silencioso e digital. Os bilhetes viraram mensagens criptografadas em aplicativos. A comparação entre colegas se intensificou nas redes sociais. As dores são compartilhadas com seguidores anônimos e não mais com os pais ou amigos de confiança. O adolescente de hoje carrega pressões que muitas vezes nem sabe nomear. Os dados confirmam: segundo a OMS, o suicídio é a 4ª principal causa de morte entre adolescentes de 15 a 19 anos no mundo. No Brasil, a Pesquisa Nacional de Saúde Escolar (PeNSE/IBGE, 2022) apontou que quase 24% dos estudantes do 9º ano se sentiram tristes ou sem esperança por dias seguidos, e mais de 35% já sofreram bullying. São números que nos obrigam a rever a forma como estamos olhando – ou deixando de olhar – para nossos jovens. Diante disso, as escolas têm se reposicionado com responsabilidade. Muito além do ensino de conteúdo, elas se tornaram espaços de escuta, acolhimento e orientação. Com programas de apoio socioemocional, rodas de conversa, psicologia escolar e mediação de conflitos, instituições como o Colégio Externato São José vêm desenvolvendo ações concretas para formar estudantes com mais consciência, empatia e equilíbrio emocional. Contudo, cresce a demanda para que a escola se posicione diante dessa realidade, ao mesmo tempo em que diminuem a presença e o envolvimento efetivo das famílias em espaços de diálogo, escuta e formação promovidos pela própria instituição. Encontros importantes, que poderiam fortalecer vínculos e orientar pais e mães, muitas vezes não contam com a participação daqueles que mais exigem respostas. É fundamental, portanto, cobrar parceria real com diálogo gentil, não violento, baseado no respeito mútuo entre família e escola. O que a série mostra não assusta os profissionais da educação — os perfis ali retratados são conhecidos, vistos e acompanhados diariamente. O que preocupa é o silêncio das famílias, a ausência do olhar atento dentro de casa, a terceirização da escuta e da responsabilidade. No livro Geração Ansiosa, a psicóloga Lisa Damour afirma que a ansiedade não é o vilão — ela é um sistema de alarme saudável, que precisa ser compreendido, e não sufocado ou ignorado. Ela escreve: "Adolescentes não precisam ser poupados da ansiedade. Precisam aprender a enfrentá-la com apoio, ferramentas e confiança.” E isso se constrói com presença. Com escola e família caminhando juntas. Com escuta e firmeza. Com regras e amor. E o que pode ser feito, de forma prática, diante desse cenário? Uma solução viável e urgente é promover a integração entre escola, família e comunidade por meio de espaços de escuta e diálogo contínuo: encontros formativos com os pais, rodas de conversa com os alunos, presença de profissionais capacitados na escola, e um compromisso conjunto de educar para além do conteúdo — educar para a vida. A adolescência é uma travessia. E nenhum jovem deveria atravessá-la sozinho. A série da Netflix pode até ser uma ficção, mas os dilemas que ela expõe são reais. E urgentes. Antes de sermos surpreendidos por respostas tardias, que tal fazermos a pergunta certa: você realmente conhece seu filho? Tatiana Santana é diretora do Colégio Externato São José e coordenadora regional da ANEC (Associação Nacional de Educação Católica do Brasil). Notícia distribuída pela saladanoticia.com.br. A Plataforma e Veículo não são responsáveis pelo conteúdo publicado, estes são assumidos pelo Autor(a):
CAROLINA OLIVEIRA DE ASSIS
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