Minissérie "Adolescência" toca em feridas abertas da nossa sociedade

BETE FARIA NICASTRO
02/04/2025 14h01 - Atualizado há 17 horas

Minissérie Adolescência toca em feridas abertas da nossa sociedade
Paula Furtado
*Paula Furtado
 
Muitas pessoas me questionam porque a minissérie britânica “Adolescência”, lançada recentemente pela Netflix, faz tanto sucesso. Acredito que a repercussão se dá porque toca em feridas abertas da nossa sociedade.


A história de Jamie Miller, um menino de 13 anos, aparentemente pacato, que apresenta sinais claros de tristeza e desconexão — possivelmente agravados pelo uso excessivo de tecnologia como fuga de uma realidade insatisfatória — comete um homicídio brutal ao assassinar uma colega de escola a facadas. O episódio, além de chocar, provoca reflexões profundas sobre o que temos feito (ou deixado de fazer) como pais e educadores pelas nossas crianças e adolescentes.

Logo, minha resposta não vem com um vilão pronto, mas com camadas: familiares, sociais e emocionais. Reflete o desafio de crescer em uma sociedade onde o excesso de informação não vem acompanhado de formação, onde a solidão é disfarçada por curtidas, e onde os adultos, muitas vezes, estão físicos ou emocionalmente indisponíveis.

A tragédia que acontece no enredo não é um caso isolado, é um sintoma, por isso, considero a obra como sendo um espelho incômodo da desconexão entre pais e filhos, da ausência de escuta e da influência silenciosa das redes sociais. É um alerta que muitos adultos, educadores e famílias estavam precisando.

A minissérie nos convida a olhar para a infância e adolescência com mais cuidado, menos julgamento e mais escuta. Ela mostra como o silêncio dentro das famílias pode ser tão violento quanto o próprio ato de agressão, e também evidencia que os recurso digitais, sem mediação, pode se tornar um lugar de fuga, influência negativa e isolamento.

O protagonista enfrenta um turbilhão interno: a solidão emocional, a ausência de vínculos afetivos consistentes, o excesso de telas e a falta de limites claros. Apesar de a trama mostrar uma família amorosa, não é suficiente para conhecer e entender o filho “trancado no quarto em seu próprio mundo virtual”.  Tudo isso reforça como é difícil amadurecer em uma cultura onde há muito acesso à informação, mas pouco acolhimento emocional.

Vejo nesse garoto o retrato de muitos adolescentes que atendo, emocionalmente abandonados, com dificuldades de nomear seus sentimentos, e facilmente influenciáveis por discursos de ódio e menos valia, disfarçados de pertencimento.

Como educadora e terapeuta, considero a obra um convite à escuta, à empatia e ao pensamento crítico. Jamie, com sua história, ajuda os jovens a se verem, a reconhecerem suas angústias, medos e solidões. A tensão não é um obstáculo, mas uma porta de entrada para conversas profundas sobre o mundo que habitam. Acredito que com mediação adequada, a minissérie pode se tornar um poderoso instrumento pedagógico e emocional para construção de vínculos e reflexão coletiva.

Outro ponto que destaco é o trabalho da psicóloga que representa a figura do adulto que escuta sem julgar, que acolhe o não dito, que observa para além das palavras. Sua presença é fundamental porque, muitas vezes, o adolescente não tem linguagem para expressar o que sente. A escuta sensível e o olhar clínico ajudam a decifrar gestos, silêncios, medos. Ela também simboliza o papel que tantos educadores e profissionais têm de ser como ponto de apoio, esse espaço seguro onde o jovem pode, finalmente, ser visto. No enredo, o vínculo criado com a terapeuta faz pensar que o rumo da história poderia ter sido outro se ele tivesse essa escuta nos momentos silenciosos de sua angústia.

É urgente que os pais voltem a ocupar o lugar de autoridade amorosa. A tecnologia não pode ser babá e nem substituta da presença. Estabelecer rotinas saudáveis, combinar horários de uso de telas, conversar sobre o que os filhos consomem, tudo isso é fundamental. Mais do que vigiar, é preciso participar, pois a escuta ativa e o diálogo constante são ferramentas poderosas de proteção emocional. Crianças e adolescentes precisam de limites claros e, sobretudo, de adultos presentes.

Paula Furtado 

@paulafurtadopf
Psicopedagoga, escritora e contadora de histórias

 

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MARIA ELISABETE DE FARIA NICASTRO
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