Com a saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris, em janeiro de 2025, acendeu-se um alerta para ambientalistas e países que buscam uma transição energética sustentável. O governo americano, por sua vez, continua deixando claro que a preservação ambiental não será uma prioridade nesta administração.
Um exemplo disso é a ordem executiva assinada pelo presidente Donald Trump, permitindo o retorno do uso massivo de canudos de plástico no país. Além dos impactos imediatos sobre o meio ambiente, especialmente na fauna marinha, o efeito desse plástico se estende por décadas. Com o tempo, ele deixa de ser apenas um canudinho e se transforma em microplásticos que se acumulam no ecossistema.
Há anos, cientistas alertam sobre os perigos dos microplásticos, mas esses avisos continuam sendo ignorados. Pesquisas indicam que, atualmente, essas partículas estão praticamente em todos os lugares: no ar, no solo, na água, no leite e até mesmo no camarão fresco da peixaria do bairro. Invisíveis a olho nu, elas se infiltram no nosso cotidiano sem que sequer percebamos.
Os microplásticos são, basicamente, minúsculas partículas de plástico liberadas no ambiente, inserindo-se de maneira sutil e abrangente em diversos ecossistemas. Sabe aquela esponja, sacola ou brinquedo de plástico que se degrada com o tempo no quintal de casa? Pois bem, esse plástico ainda existe, mas agora está fragmentado em trilhões de pedaços menores que 5 milímetros (mm), sendo a maioria ainda menor, na casa dos micrômetros (1 mm, dividido em mil partes iguais). Esses são os chamados microplásticos e estão começando a fazer parte do nosso corpo.
Recentemente, uma pesquisa conduzida pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP) investigou a presença de microplásticos no corpo humano e encontrou essas partículas em um órgão particularmente preocupante: o cérebro. Os fragmentos foram identificados no bulbo olfatório — região do cérebro responsável pelo reconhecimento de odores e integrante do sistema nervoso central — de seis indivíduos que viveram por pelo menos cinco anos na cidade de São Paulo.
Embora pesquisadores já tenham detectado microplásticos em diversos órgãos, como pulmões, sistema reprodutivo, fígado, rins, intestino e coração, a descoberta dessas partículas no cérebro é especialmente alarmante. Segundo o químico Henrique Eisi Toma, especialista em nanomateriais do Instituto de Química da USP, "a detecção de microplásticos no cérebro causa preocupação porque ele é o órgão mais blindado do corpo", afirmou em entrevista à revista Fapesp.
De fato, o cérebro é protegido pela barreira hematoencefálica, uma membrana composta por três tipos de células cuja função é realizar uma rigorosa filtragem das substâncias que podem entrar em contato com o sistema nervoso central.
Diante disso, surge uma questão inquietante: se esse sistema de proteção é tão eficiente, como essas partículas conseguiram ultrapassá-lo? Seria resultado da alta concentração de microplásticos presente no ar das grandes metrópoles? O que se pode afirmar com certeza é que estamos constantemente ingerindo e inalando plástico, a ponto de elas se tornarem parte do nosso próprio organismo.
Como espécie, estamos alterando não apenas o meio ambiente, mas até mesmo as composições celulares dos seres vivos, incorporando o plástico a elas. Para se ter uma ideia da magnitude desse impacto, a produção anual de resinas plásticas cresceu mais de 230 vezes nos últimos 70 anos, saltando de 2 milhões de toneladas/ano para 460 milhões de toneladas/ano em 2019 1.
Se os microplásticos já chegaram ao nosso cérebro, até onde mais eles podem chegar? O uso desenfreado do plástico em nosso cotidiano realmente vale os riscos que estamos assumindo para a saúde humana e para o planeta?
(*) Anderson Roberto Benedetti é biólogo e Mestre em Genética e Melhoramento de Plantas. Docente da Área de Geociências do Centro Universitário Internacional Uninter.
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JULIA CRISTINA ALVES ESTEVAM
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