Com a aproximação do Ano Novo, cresce a preocupação na Zona Leste de São Paulo diante da ampliação do aterro sanitário e do projeto de implantação de um incinerador de lixo em São Mateus. A iniciativa, defendida pela Prefeitura de São Paulo, sob a gestão de Ricardo Nunes, e pela empresa EcoUrbis, é apontada por moradores e movimentos sociais como uma ameaça direta à saúde, à qualidade de vida e à dignidade de quem vive e trabalha na região.
Críticos do projeto alertam para os impactos da incineração de resíduos, associada à liberação de poluentes altamente tóxicos. Estudos e experiências internacionais relacionam esse tipo de atividade ao aumento de doenças respiratórias, cardiovasculares e casos de câncer, além da redução da expectativa de vida da população exposta. Os efeitos, segundo os alertas, não se restringiriam a São Mateus, alcançando toda a Zona Leste e municípios vizinhos, como Santo André, Mauá e Ferraz de Vasconcelos, já que a poluição atmosférica não respeita limites territoriais.
O debate também ganhou contornos políticos. Enquanto o governo federal, sob a presidência de Luiz Inácio Lula da Silva, busca recolocar a população no centro das políticas públicas, críticos afirmam que o governo estadual e a Prefeitura de São Paulo seguem em sentido oposto. O governador Tarcísio de Freitas é acusado de priorizar privatizações e projetos que ampliam desigualdades, enquanto a administração municipal é apontada por concentrar na periferia empreendimentos que dificilmente seriam aceitos em regiões mais ricas da cidade. Para os opositores do incinerador, trata-se de um caso de racismo ambiental e injustiça social.
Em contraposição ao projeto, movimentos sociais e lideranças locais defendem outro modelo de gestão de resíduos sólidos. As propostas incluem o fortalecimento da coleta seletiva, investimentos em reciclagem, valorização do trabalho de catadores e catadoras, estímulo à economia circular e geração de renda. Segundo esses grupos, a incineração representa uma tecnologia ultrapassada, que privilegia o lucro de poucos em detrimento da saúde coletiva.
Apesar do tom de denúncia, o posicionamento também traz um chamado à mobilização e à esperança. Com o horizonte político de 2026 se aproximando, os manifestantes defendem um projeto de cidade e de país que priorize a vida, o meio ambiente e o futuro das próximas gerações. A mensagem é clara: sem incinerador, com ar limpo e com participação popular nas decisões que definem os rumos de São Paulo.
Ministério Público abre inquérito civil
A mobilização contra o projeto já resultou em desdobramentos jurídicos. A partir de representação apresentada pelo mandato da deputada federal Juliana Cardoso (PT), o Ministério Público Estadual instaurou um inquérito civil para apurar o caso. Após análise da denúncia e de elementos técnicos produzidos pelo próprio órgão, o MP concluiu pela procedência das alegações.
Como consequência, a Procuradoria-Geral de Justiça propôs o ajuizamento de uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADIN) contra a lei aprovada pela Câmara Municipal que alterou o Plano Diretor Estratégico (PDE). A mudança na legislação teria como objetivo flexibilizar a classificação da área, viabilizando a ampliação do aterro, a derrubada de cerca de 63 mil árvores e a instalação do incinerador.
Atualmente, o processo aguarda a análise de um pedido de liminar que pode suspender os efeitos da lei questionada. Enquanto isso, moradores e organizações da Zona Leste seguem mobilizados, afirmando que a região está viva, organizada e disposta a defender seu direito a um futuro saudável e sustentável.