O Núcleo de Estudos em Corporeidades Negras promove, durante o mês de março, a circulação do espetáculo cênico-musical "Boi de Piranha" em diferentes espaços públicos de São Paulo. Contemplado pela 9ª Edição do Programa de Fomento à Cultura da Periferia, o projeto ocupa territórios como o Cangaíba, Penha e José Bonifácio, reforçando a produção artística das bordas da cidade como espaço legítimo de memória e conhecimento. As apresentações ocorrem nos dias 07, 14, 15, 21, 22 e 28, sempre às 16h30, com entrada gratuita.
A obra transporta o público para Bagaceira, uma cidade mítica habitada por migrantes nordestinos e seus descendentes, marcada por contrastes entre a violência histórica e a resistência mística. Fruto de uma pesquisa profunda sobre o Cangaço, o espetáculo investiga as interseções entre raça e gênero, com foco nas masculinidades negras. A trama questiona como a lógica colonial e o Estado brasileiro preservam privilégios e reproduzem opressões contra populações negras e indígenas.
Com direção artística e dramaturgia de Kelly Santos, a montagem une teatro, dança, poesia e uma trilha sonora executada ao vivo, sob a direção da percussionista baiana Loiá Fernandes. O espetáculo utiliza a música e as manifestações culturais para tensionar o passado e o presente, propondo uma reflexão sensível sobre a identidade brasileira. "Boi de Piranha é o encontro do sertão com a quebrada, estabelecendo diálogos de reconhecimento e reinvenção", define a diretora.
A narrativa também aborda conceitos contemporâneos como a necropolítica, refletindo sobre corpos historicamente marcados pela violência do Estado. Kelly Santos recorda que a criação foi atravessada por fatos como o assassinato de Marielle Franco e recentes chacinas, que afetaram o processo criativo. "Fazemos uma reflexão sobre esses corpos que já nascem marcados para morrer", explica a dramaturga, destacando a conexão profunda do tema com a Zona Leste, território de forte migração nordestina.
A circulação acontece em pontos estratégicos: começa na Praça Bom Pastor (Conjunto José Bonifácio), passa pelo Largo do Rosário (Penha) e pelo Teatro Flávio Império (Cangaíba), encerrando o ciclo novamente no José Bonifácio. Com classificação livre e duração de 90 minutos, o projeto reafirma a luta dos artistas periféricos por políticas públicas estruturantes e pelo reconhecimento de sua potência política e criativa.
07/03 e 28/03: Praça Bom Pastor – Conj. Res. José Bonifácio
14/03 e 15/03: Largo do Rosário – Penha de França
21/03 e 22/03: Teatro Flávio Império – Cangaíba
Horário: 16h30
Entrada: Gratuita
Classificação: Livre