“Herança invisível”: como traumas geracionais podem aparecer na relação com a comida, explica psicóloga
Após discurso de Wagner Moura sobre “memória e traumas geracionais” ao vencer o Globo de Ouro por O Agente Secreto, Dra. Priscilla Leitner comenta o que a ciência e a clínica já observam: padrões familiares podem sustentar sintomas alimentares
THE SECRET AGENT © Victor Juca
A vitória de Wagner Moura no Globo de Ouro 2026 como Melhor Ator em Filme de Drama por O Agente Secreto e o prêmio do longa como Melhor Filme em Língua Não Inglesa recolocaram no centro do debate um tema que a clínica vê todos os dias: memória e traumas geracionais. No discurso, Moura citou o filme como uma história sobre “memória” e “traumas geracionais”, e a fala ecoou para além do cinema.
Para a psicóloga Dra. Priscilla Leitner, especialista em comportamento e transtornos alimentares e fundadora do IPCAC (Instituto de Pesquisa do Comportamento Alimentar de Curitiba), trauma geracional raramente aparece com essa etiqueta. “Ele costuma chegar como padrão: silêncio emocional, hipercontrole, culpa, anestesia, vergonha — e, muitas vezes, como sofrimento que se manifesta na comida e no corpo”, explica.
“Trauma geracional não é um conceito bonito. É o que vira regra emocional dentro de casa: o que não pode ser sentido, o que não pode ser dito, o que precisa ser controlado. Quando a emoção não ganha linguagem, ela procura outro lugar para existir — e muitas vezes aparece na relação com a comida”, afirma a Dra.
Do ponto de vista científico, pesquisas recentes têm investigado como experiências adversas e padrões de comportamento podem se associar entre gerações. Um estudo publicado em 2023 na revista European Psychiatry analisou díades mãe–filha e tríades avó–mãe–filha e encontrou associações entre história de maus-tratos na infância e comportamentos relacionados a transtornos alimentares, sugerindo que o padrão pode se sustentar na dinâmica familiar, e não apenas em fatores individuais. A psicóloga ressalta que esse tipo de estudo, baseado em questionários, não estabelece causa e efeito, mas ajuda a refinar a conduta clínica: “Quando o padrão é familiar, olhar só para a paciente pode ser pouco”.
“A transmissão não é só do trauma — é do modo de sobreviver ao trauma. Em muitas famílias, comida, corpo, controle e vergonha entram nessa equação como linguagem de proteção. Quando a família inteira ganha linguagem, a intervenção muda: sai a briga com o sintoma, entra segurança e estratégia”, pontua.
Na prática, a especialista defende que a abordagem precisa evitar dois extremos: transformar o tema em teoria distante ou cair na armadilha de “culpar a família”. “A lente transgeracional não é um tribunal; é um mapa. Ela ajuda a localizar o que foi aprendido como sobrevivência e a construir novas respostas — com mais autonomia e menos culpa”, diz.
Como orientação inicial, a Dra. Priscilla sugere três perguntas que ajudam a trazer o transgeracional para a clínica e para conversas familiares com mais cuidado:
Três perguntas que ajudam a enxergar o transgeracional sem culpar a família
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O que, nessa família, não podia ser sentido em voz alta?
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Qual padrão se repete com novas justificativas? (silêncio, explosão, hiperresponsabilidade, controle, desconexão)
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O que essa pessoa está carregando que não é só dela? (lealdades, dores normalizadas, histórias apagadas)
Quando esse padrão é nomeado com respeito, a pessoa muitas vezes sai do ‘eu sou errada’ e entra no ‘eu tenho uma história’. Isso muda adesão, segurança e prognóstico.
Priscilla Leitner (Dra. Pri) é psicóloga clínica e atua há mais de 15 anos nas áreas de Comportamento e Transtornos Alimentares, Medicina do Estilo de Vida e Psicopatologia. É fundadora e CEO do IPCAC (Instituto de Pesquisa do Comportamento Alimentar de Curitiba) e fundadora da Eloria Press (Miami–FL), casa editorial internacional dedicada a obras de saúde mental e comportamento. Professora de pós-graduação, pesquisadora, escritora e palestrante, é reconhecida por traduzir evidências em condutas claras e aplicáveis.
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