Sinais de ideação suicida aparecem no dia a dia e exigem atenção de quem está por perto
Especialistas em DBT explicam como identificar sinais de risco e iniciar conversas que podem salvar vidas
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A pessoa que pensa em tirar a própria vida nem sempre demonstra tristeza evidente ou isolamento. Em muitos casos, segue trabalhando, convivendo socialmente e aparentando normalidade enquanto enfrenta, em silêncio, pensamentos persistentes de morte. Dados da Organização Mundial da Saúde indicam que a maioria das pessoas com ideação suicida não verbaliza diretamente o desejo de morrer, o que amplia a responsabilidade de familiares, colegas e pessoas próximas na identificação precoce dos sinais. Especialistas da DBT Brasil alertam que mudanças sutis de comportamento costumam anteceder crises mais graves. Oscilações bruscas de humor, falas frequentes sobre cansaço extremo, sensação de inutilidade, comentários sobre ser um peso para os outros ou sobre a falta de sentido da vida aparecem entre os sinais mais recorrentes. Também chamam atenção atitudes como despedidas fora de contexto, organização repentina de assuntos pessoais, doação de objetos importantes e aumento do consumo de álcool ou outras substâncias. Para Vinícius Guimarães Dornelles, integrante da diretoria da Associação Mundial em DBT, observar essas mudanças sem relativizar o sofrimento faz diferença. “Muitas pessoas não conseguem pedir ajuda de forma direta. Elas seguem funcionais, mas deixam pistas no comportamento e na fala. Quando alguém percebe e se aproxima, isso já reduz o risco”, afirma. A Terapia Comportamental Dialética, conhecida como DBT, é um método terapêutico baseado em evidências científicas e reconhecido internacionalmente para o tratamento de comportamentos suicidas, autolesão e sofrimento emocional intenso. Criada a partir da psicologia comportamental e cognitiva, a abordagem combina estratégias de regulação emocional, tolerância ao mal-estar, construção de relações mais seguras e prevenção de crises, com foco direto na preservação da vida. Segundo Êdela Nicoletti, psicóloga, diretora da DBT Brasil e uma das principais referências na formação de terapeutas DBT no país, a abordagem orienta que a ajuda comece pela validação. “A pessoa em sofrimento não precisa ser convencida de nada. Ela precisa ser escutada. Perguntar de forma clara se há pensamentos de morte não aumenta o risco. Essa pergunta abre espaço para o alívio e para a conexão”, explica. De acordo com ela, frases simples como estou aqui com você ou você não precisa passar por isso sozinha agora criam um ponto de apoio real. No atendimento profissional, a DBT trabalha com protocolos estruturados que envolvem estabilização emocional, desenvolvimento de habilidades para atravessar crises e avaliação contínua de segurança. O tratamento aborda diretamente a ideação suicida e ensina caminhos para lidar com a dor sem recorrer à autodestruição. “A DBT oferece ferramentas práticas para atravessar momentos de sofrimento intenso e permanecer vivo quando tudo parece insuportável”, afirma Êdela. Mesmo sem formação em psicologia, qualquer pessoa pode exercer um papel relevante na prevenção ao permanecer disponível, ouvir com atenção e incentivar a busca por ajuda especializada. A orientação dos especialistas é evitar julgamentos, conselhos rápidos ou tentativas de minimizar a dor. Em situações de risco imediato, a recomendação é não deixar a pessoa sozinha e buscar atendimento de emergência. O alerta reforça que o sofrimento psíquico nem sempre é visível. Em muitos casos, ele está ao lado, em casa, no trabalho ou na vizinhança. Perceber mudanças, iniciar uma conversa e sustentar presença pode não resolver tudo, mas frequentemente é o primeiro passo para interromper um ciclo silencioso de risco.
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