A rede municipal de saúde de São Paulo tem intensificado o acolhimento a mulheres em situação de violência por meio dos Núcleos de Prevenção à Violência (NPV). Um dos destaques é o "Grupo Girassóis", criado na AMA/UBS Anhanguera I, na Zona Norte, que utiliza rodas de conversa e atividades culturais para ajudar mulheres de 20 a 69 anos a identificarem e romperem ciclos de abusos físicos e psicológicos. O projeto oferece suporte emocional aliado a atendimentos médicos, odontológicos e de saúde mental, focando na reconstrução da autonomia das participantes.
Essa iniciativa local faz parte de uma estrutura ampla que abrange todas as 480 Unidades Básicas de Saúde (UBSs) da capital, além de 19 Equipes Especializadas de Violência (EEVs) para casos complexos. Entre janeiro e outubro de 2025, os NPVs registraram 24.603 atendimentos na cidade. Segundo a Secretaria Municipal da Saúde (SMS), o aumento nas notificações — com alta de 23% na violência física e 63,6% na sexual entre 2021 e 2025 — reflete tanto a maior incidência quanto a qualificação das equipes em identificar casos que antes passavam despercebidos.
O atendimento também foi reforçado na rede de urgência e emergência através do projeto "UPAs em Ação". A UPA Pirituba, por exemplo, implementou o "Código Lilás", um protocolo que garante reconhecimento imediato da vítima, exames, profilaxias e notificações obrigatórias já na porta de entrada. Somente nesta unidade, são registrados cerca de 150 casos por mês, demonstrando a importância de trilhas de cuidado específicas para que a interrupção da violência ocorra de forma segura e técnica.
O fluxo de atendimento na rede municipal é desenhado para garantir sigilo e proteção. Ao procurar qualquer equipamento de saúde, a mulher passa por uma escuta qualificada para a construção de um Projeto Terapêutico Singular (PTS). A partir desse plano, a rede articula encaminhamentos para assistência social, justiça e segurança pública, sempre respeitando o tempo de decisão da usuária. O fortalecimento dessas ações visa oferecer uma resposta transversal e contínua para reduzir os impactos neurológicos e físicos causados pelas relações abusivas.
Desde 2019, a prefeitura promove capacitações contínuas para os profissionais de saúde sobre psicodinâmica familiar e estratégias de cuidado territorial. O objetivo é transformar as unidades de saúde em espaços seguros onde as mulheres possam encontrar apoio sem julgamentos. Para as autoridades de saúde, a identificação precoce de sintomas como ansiedade e depressão, muitas vezes ligados a contextos de violência, é essencial para garantir que cada cidadã tenha acesso a uma vida com mais segurança e dignidade.