Até 30% das crianças autistas não desenvolvem fala, aponta estudo

Especialistas reforçam que intervenção precoce e comunicação alternativa ampliam autonomia, inclusão e até potencializam o desenvolvimento da fala

Por JúLIA BOZZETTO
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Até 30% das crianças autistas não desenvolvem fala, aponta estudo
Divulgação

Um estudo publicado na revista Research, Society and Development aponta que cerca de 30% das crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) permanecem minimamente verbais ou não verbais, mesmo após acompanhamentos contínuos. O dado, embora expressivo, é frequentemente interpretado de forma equivocada pelas famílias. Especialistas alertam que identificar precocemente sinais de atraso na linguagem e oferecer métodos eficazes de comunicação, incluindo a Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA), é determinante para ampliar autonomia, reduzir frustrações e favorecer o desenvolvimento infantil.

A pesquisa mostra que a ausência de fala impacta múltiplas áreas do desenvolvimento social, emocional e cognitivo. No entanto, a comunicação, seja oral, visual, gestual ou mediada por tecnologia, continua sendo um dos pilares para uma vida mais independente.

Para a neuropsicopedagoga Silvia Kelly Bosi, especialista em autismo, é fundamental desfazer mitos que ainda circulam entre as famílias.“Existe a crença de que toda criança autista não vai falar ou terá atraso de fala, mas isso não é verdade. Cada indivíduo é único, e apenas cerca de 30% pode não desenvolver a fala funcional. O que precisamos é mudar o foco: a fala é só uma das formas de comunicação. Quando entendemos isso, abrimos espaço para que essas crianças participem, se expressem e se desenvolvam de forma saudável”, explica.

Angelika dos Santos Scheifer, fonoaudióloga especialista em atraso de fala,  reforça ainda um ponto central: o uso da comunicação alternativa não atrapalha o desenvolvimento da fala, ao contrário, pode acelerá-lo. “Muitas famílias acreditam que iniciar a comunicação alternativa ‘vai condenar a criança a nunca falar’. Já ouvi até pais dizendo que estariam fadando o filho ao fracasso. Isso não é verdade. Quando aplicada corretamente, a CAA é uma das formas mais eficazes de organizar essas crianças, dar acesso à comunicação e, inclusive, facilitar o surgimento da fala naquelas que têm viabilidade. Para as que não têm, garantimos o mais importante: a comunicação”, completa.

A literatura científica destaca ferramentas como o PECS, recursos visuais, sistemas de CAA, gestos, tablets e, mais recentemente, tecnologias como aplicativos de reconhecimento emocional e robôs sociais, todos com evidências de melhora na interação, intenção comunicativa e participação social.

Angelika reforça que o início precoce da intervenção faz toda a diferença. “Quanto mais cedo iniciamos estímulos estruturados e personalizados, maiores são as chances de desenvolvermos uma comunicação funcional, seja pela fala, por figuras, dispositivos eletrônicos ou gestos. O objetivo é permitir que a criança expresse necessidades, emoções e escolhas, garantindo bem-estar e inclusão”, afirma.

Angelika acrescenta que, apesar do impacto inicial do número de crianças não verbais, é essencial observar o outro lado da estatística. “Se 30% não falam, isso significa que 70% falam. E minha visão clínica — que, claro, não podemos comprovar retroativamente — é que muitos dos que não desenvolveram fala poderiam tê-la adquirido se tivessem recebido diagnóstico precoce, intervenção adequada e suporte familiar estruturado. A CAA não é um obstáculo: é um facilitador, tanto para a independência quanto para a fala. As famílias não devem fugir dela”, destaca.

O estudo reforça ainda a importância de ampliar o acesso a práticas baseadas em evidências, fortalecer o trabalho interdisciplinar e garantir que cada criança seja acompanhada de acordo com seu ritmo e perfil de desenvolvimento. A combinação entre identificação precoce, estratégias individualizadas e tecnologias assistivas é apontada como o caminho mais eficaz para melhorar a qualidade de vida de crianças autistas — falantes ou não.


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JÚLIA KLAUS BOZZETTO
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