A fala não surge no silêncio, nem no isolamento. Ela nasce da convivência, da troca e da participação ativa da criança no dia a dia da família. Durante o recesso escolar e as festas de fim de ano, no entanto, muitas crianças com atraso de fala acabam sendo afastadas de atividades cotidianas e encontros sociais, um movimento que, mesmo sem intenção, pode dificultar ainda mais o desenvolvimento da linguagem.
Segundo a fonoaudióloga Angelika dos Santos Scheifer, especialista em atraso de fala, incluir a criança nas situações do cotidiano é um dos principais caminhos para fazer a fala fluir. “A criança precisa viver experiências reais de comunicação. Quando ela participa das atividades da casa, das brincadeiras e dos encontros familiares, a fala encontra motivo para acontecer”, explica.
Momentos simples, como ajudar a organizar a mesa, escolher um presente, brincar com outras crianças ou acompanhar conversas entre adultos, são ricos em estímulos de linguagem. Nessas situações, a criança observa, escuta, tenta se expressar e atribui significado às palavras. “A fala não é treinada de forma isolada. Ela se constrói na interação, quando a criança percebe que comunicar algo faz diferença”, afirma Angelika.
Durante as férias, quando a rotina escolar e terapêutica costuma ser interrompida, o ambiente familiar se torna ainda mais determinante. A especialista alerta que o isolamento, muitas vezes adotado por medo de julgamentos ou para evitar frustrações, pode bloquear esse processo. “Quando a criança é retirada das interações, ela perde oportunidades essenciais de troca. A fala precisa de intenção, e a intenção nasce da relação com o outro”, destaca.
Incluir não significa cobrar que a criança fale corretamente ou forçá-la a se comunicar. Pelo contrário. Trata-se de permitir presença, participação e tempo. “A criança pode apontar, olhar, gesticular, vocalizar. Tudo isso faz parte do caminho da fala. Quanto mais acolhida e envolvida ela se sente, maior é a chance de a linguagem fluir naturalmente”, explica a fonoaudióloga.
Além de favorecer o desenvolvimento da fala, a inclusão fortalece o vínculo familiar e reduz a ansiedade dos pais. “Quando a família entende que cada interação conta, o processo deixa de ser pesado e passa a ser contínuo. A fala não acontece porque é exigida, mas porque é vivida”, conclui Angelika.
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JÚLIA KLAUS BOZZETTO
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