Aí Onde Não Cabe, lançado pela editora Patuá, é o novo livro do poeta, cronista e ficcionista Alexandre Beltrão, que traz duas novelas reunidas no mesmo volume: O Anjo Ouve os Noturnos e Zerinho ou um – vencedora do Primeiro Prêmio Flipoços/Kindle - 2022; repetindo a fórmula de composição de A Câmera e a Pena – Duas Novelas, lançado pela Cais Pharoux em 2009.
Dentre outros méritos de bom prosador, Alexandre Brandão domina como poucos algumas técnicas exemplares quando se pretende prender a atenção do leitor e levá-lo a degustar o livro num ritmo vira-páginas em busca da conclusão, algo frequente nas boas histórias que envolvem mistérios, como é o caso de O Anjo Ouve os Noturnos e, com outro feitio enigmático, o Zerinho ou um.
No primeiro caso, um dos artifícios usados com mestria é o da linguagem direta célere, a abordagem objetiva dos fatos relevantes ao enredo e ao deslinde do caso, postos sob a ótica de quem os narra, mas ignora o desfecho, como nós, os ávidos leitores. Só o que importa à história é apresentado, mesmo que nem sempre ligados à trama em si, mas em todos os casos importantes para a construção dos personagens centrais. Diálogos concisos, relevantes, quase sem interposição das frases dicendi ou de elocução; períodos curtos com tópicos frasais nas aberturas que os resumem e adiantam seu conteúdo, permitindo quase que uma leitura telegráfica, linguagem predominantemente substantiva e sem estrapolias sintáticas, descrições sucintas e pontuais, capítulos curtos e subtematizados... Um rastilho de pólvora consumindo-se veloz rumo ao impacto da explosão no final de sua trilha de faíscas!
O outro engenho, mais raro até mesmo nas obras de bons escritores, é o de intercalar camadas de composição que, ao passo que se somam em sua direção, adiam a conclusão. Sob essa dinâmica, é apresentada Clara, a protagonista que, após a morte de seu pai ausente é posta sob o desafio de descobrir o lado que ele ocultou em vida. Desse modo, temas subjacentes aderem ao central em plena contribuição para a construção dos perfis dos personagens diretamente envolvidos com o núcleo do mistério, sobremaneira o da própria Clara. As relações secundárias não são, portanto, acessórias; contribuem em tudo com a clareza a respeito das ações e motivações que dão consistência, fluidez e verossimilhança ao narrado. No mais, a destreza em criar e desmontar expectativas consecutivas até que a derradeira verdade se consolide, ou não, ratifica e paradoxalmente transgride os cânones do gênero policial, extraindo das conclusões acréscimos maiores ao universo psicológico do que ao factual.
Virando o livro de cabeça para baixo e iniciando-o da outra extremidade, deparamo-nos com a outra novela Zerinho ou um – e, quanto a isso, pouco importa se tivermos começado por ela para, depois, ir de trás para frente ler a outra!
A história de Dico e Blasco, contada em breves capítulos alternados, mostra a desencontrada trajetória de dois cariocas, que têm em comum o fato de serem recém-separados e estarem em um momento da vida em que ressignificam os sentimentos e os comportamentos decorrentes da liberdade e da solidão. Cada um a seu modo: enquanto Dico busca mitigá-la em busca de um cão de estimação, Blasco, recém-premiado com uma bolada na loteria, enquanto multiplica sua fortuna, isola-se numa suíte de um hotel de luxo, onde começa a desenvolver comportamento obsessivo, quase caracterizado como antropofobia, que o torna uma espécie de ermitão urbano de convívio restrito a um amigo de infância e uma faxineira que ele trata como fantoches subalternos.
O desfecho leva a dupla Dico e Blasco a um inusitado contato que enseja a experimentação da troca de papéis como um fugaz experimento social e psicológico que lhes sirva de balizamento ao reconhecimento de suas situações e aspirações pessoais. A conclusão da farsa, contudo, conduz a uma condição trágica que aprisiona a dupla numa atmosfera carregada de simbolismos que emergem de uma súbita guinada de um fio conduzido pelo absurdo para uma resultante urdidura fantástica aos moldes do melhor realismo mágico latinoamericano. Mediante o disparate, os rendidos desejos parecem, enfim, vencer a impossibilidade de se concretizarem!
Novamente, em Zerinho ou um, Alexandre Brandão prima pelo emprego de uma linguagem depurada e ágil, diferente da outra, adaptada aos personagens masculinos e a seus universos particulares que transitam por diferentes camadas sócio-econômicas, porém igual no manejo dos recursos estilísticos que criam crescente interesse pelo deslinde dos fatos, sem detenção em aspectos supérfluos à narrativa. Um contador de histórias, como poucos, camaleônico, mas sempre consciente das escolhas que magnetizam a atenção do leitor, conduzindo-o à consequente fluidez da leitura.
Ainda que presentes questões deveras relevantes e amiúde presentes na pauta da boa Literatura, como a dos possíveis papéis sociais decorrentes da situação econômica, a do vazio existencial que independe dessas condições ou o da feminilidade que se constrói em resistência à brutalidade do universo masculino, entre outras, as novelas são leves, uma vez que não se enveredam por digressões ou reflexões de peso filosófico. Ao contrário, são as histórias, com suas sagazes abordagens, consistentes arquiteturas e provocativas transgressões que dão conta desses recados tão importantes e não a voz de um narrador postulante a analista. Em suma, pela relevância temática, não são mero entretenimento, mas muito entretêm pela dinâmica narrativa. Livro desses para levarmos para um parque, escolhermos a sombra de uma árvore e ler despreocupados, em plena fruição do ócio criativo. O resultado, de trás para frente e de frente para trás, decerto, é boa diversão, com acréscimos de reflexão sobre a condição humana sem o peso dos julgamentos e a condenação às suas penas.
Luiz Eduardo de Carvalho é teatrólogo, escritor, editor e crítico de arte, com 17 títulos publicados, entre eles Xadrez, Evoé, 22!, Sessenta e Seis Elos e Um Conto de Réis (e de Rainhas). Recentemente lançou Mãos de Deus - biografia autorizada do padre Júlio Lancellotti.
Alexandre Brandão, mineiro de Passos, radicado no Rio de Janeiro, depois de dois livros de poesia, em 2020 e 2022. Já havia lançado Contos de Homem (Editora Aldebarã – 1995), Estão Todos Aqui (Editora Bom-Texto – 2005), Sexo, Amor, o Resto e o que Ficou Esquecido (Editora Patuá – 2017, prêmio Oficina do Escritor - FUNARTE), Uns e outros mais dois ou três (Editora Patuá – 2018), Nenhuma poesia: uma antologia (Editora Patuá – 2020) e O Sol Pelo Basculante (Editora Urutau 2022). Volta à prosa, repetindo a estrutura de seu A Câmera e a Pena (Cais Pharoux – 2009), qual seja, a reunião de duas novelas. Em Aí onde não cabe, quarto livro do autor na Patuá, estão Zerinho ou um (vencedor do Primeiro Prêmio Flipoços/Kindle, em 2022) e O Anjo Ouve os Noturnos. Como em 2009, Alexandre conta com a parceria de Ricardo Tamm, artista plástico e professor (UERJ), com quem tem realizado diversos trabalhos desde então. Mantém, desde 2007, o Blog No Osso (www.noosso.blogspot.com) e escreve para a revista Rubem.
Serviço:
Ai Onde Não Cabe
Alexandre Brandrão
Ilustrações de Ricardo Tamm
Editora Patuá - www.editorapatua.com.br
ISBN 978-65-5864-776-8
145 pág
R$ 50,00
Notícia distribuída pela saladanoticia.com.br. A Plataforma e Veículo não são responsáveis pelo conteúdo publicado, estes são assumidos pelo Autor(a):
LUIZ EDUARDO DE CARVALHO
[email protected]