Proibição do uso de celular nas escolas pode gerar abstinência? Psicóloga explica os impactos positivos e negativos e como contorna-los

No Instituto Ramacrisna, a restrição é realizada há um ano. Coordenadora relata como a ação beneficiou os alunos

CAROLINA NOGUEIRA
07/02/2025 16h34 - Atualizado há 1 mês

Proibição do uso de celular nas escolas pode gerar abstinência? Psicóloga explica os impactos positivos e negativos e como contorna-los
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A Lei Federal nº 15.100, que regulamenta o uso de dispositivos eletrônicos portáteis, inclusive celulares, por estudantes em instituições de educação básica já está em vigor. A nova legislação busca garantir que a tecnologia seja utilizada de forma pedagógica, evitando distrações e promovendo maior concentração dos alunos.

A nova lei vem dividindo opiniões. De um lado, pais que veem a restrição como um benefício educacional, contribuindo para a concentração e melhor desempenho escolar. Do outro lado, os que defendem a comunicação com os filhos durante o horário escolar. Mas qual o impacto real destas alterações no dia a dia dos estudantes e como lidar com as possíveis reações?


De acordo com a psicóloga Jéssica Tauane, do Instituto Ramacrisna, a retirada abrupta dos dispositivos pode gerar reações impulsivas, semelhantes a abstinência. “É muito comum que crianças e adolescentes tenham reações impulsivas quando os aparelhos eletrônicos são retirados de forma abrupta. Isso acontece porque o córtex pré-frontal, que é a região do cérebro responsável pelo controle das emoções, pelo raciocínio lógico e pelo planejamento, ainda está em desenvolvimento nessa fase da vida. Diferente dos adultos, que conseguem regular melhor suas emoções e entender as consequências das ações, os jovens ainda estão aprendendo a lidar com a frustração e o autocontrole”, explica. “Por isso, quando um celular, tablet ou videogame é retirado de repente, a reação pode ser intensa, com choro, irritação ou até comportamentos agressivos. Isso não significa que a criança ou o adolescente seja malcriado, mas sim que o cérebro ainda está amadurecendo e precisa de suporte para aprender a gerenciar essas emoções. ”, pontuou.

Apesar da reação inicial, ela defende o uso da tecnologia de forma controlada. “O ideal é que os pais e responsáveis estabeleçam limites claros e progressivos, comunicando antecipadamente sobre o tempo de uso e incentivando atividades alternativas. Assim, ajudam a desenvolver a autonomia e o equilíbrio no uso da tecnologia, sem provocar reações impulsivas tão intensas. ”.
Para Jéssica, a família e os educadores desempenham um papel fundamental nesta adaptação. “Vejo esta mudança como uma oportunidade de resgate social. É comum relatos no consultório de crianças e adolescentes que se sentem solitários e com dificuldade de se relacionar socialmente de forma presencial. Eles vivem imersos no universo das redes sociais e os pais também estão constantemente conectados, o que reforça o isolamento dos filhos. Momentos de conversa e atividades que reúnam a família e projetos socioeducativos nas escolas são grandes aliados neste processo. ”, finaliza.

Adaptação nas escolas

Enquanto muitas instituições estão em processo de adaptação à nova lei, o Centro de Apoio Educacional Ramacrisna (CAER), do Instituto Ramacrisna, em Betim, já colhe frutos da proibição do uso de celulares em sala de aula, adotada pela Instituição há um ano. “Já temos a determinação de proibição do uso de celulares em sala de aula há um ano, bem antes da aprovação da lei. Desde o início, buscamos implementar essa medida de forma cuidadosa, explicando aos alunos a importância desse limite para a concentração e o aprendizado. ”, explica  a psicanalista e coordenadora do CAER, Marcileide Rodrigues.

Ela conta que a adaptação foi tranquila e bem aceita por todos. “A adaptação foi muito serena, e, ao contrário do que muitos poderiam imaginar, não houve resistência por parte dos estudantes. Com o tempo, eles mesmos perceberam como essa mudança impactou positivamente no rendimento escolar. Hoje, os próprios alunos reconhecem a necessidade dessa restrição e entendem que o momento da aula é um espaço de aprendizado e troca. ”, ressaltou.

O aluno Pietro Alves da Silva, de 13 anos, percebeu melhorias acadêmicas significativas após a restrição do uso do celular. “Eu me distraía facilmente e tinha dificuldade em prestar atenção. Isso prejudicava minhas notas. Depois que o uso do aparelho proibido, minha concentração melhorou e minhas notas também. ”, conta.
Para garantir a efetividade da medida, a Instituição implementou uma prática organizada. “Todas as salas possuem uma caixa onde os alunos depositam os celulares ao entrar. O professor fica responsável por guardá-los e devolvê-los ao final das aulas”, explica Marcileide.

Tecnologia como aliada      
                         

Apesar da proibição do uso dos aparelhos, a tecnologia segue sendo incentivada na grade curricular do CAER. “Desde os seis anos, os alunos têm acesso a ferramentas tecnológicas em sala de aula, como laboratório de informática, mesa alfabetizadora, lousa digital, robótica e programação, por exemplo. O uso das telas é permitido de forma monitorada, para fins pedagógicos”, ressalta a coordenadora.

Para reforçar a conscientização sobre o uso equilibrado das telas e redes sociais, a instituição também incluiu palestras no calendário escolar e uma aula semanal com atividades no celular, supervisionadas pelos professores. “Nosso objetivo é ensinar o uso consciente da tecnologia, para que os alunos saibam utilizá-la de forma produtiva e saudável”, finaliza Marcileide.

Sobre o Ramacrisna
O Instituto foi fundado em 1959, pelo jornalista Arlindo Corrêa da Silva, e já impactou a vida de mais de 2 milhões de pessoas de 12 cidades da Grande BH nos últimos 65 anos. Localizado em Betim/MG, o Ramacrisna desenvolve projetos de aprendizagem, profissionalização, cultura, de geração de trabalho e renda, de tecnologia, de esporte e lazer, entre outros.
A Instituição já recebeu diversas premiações que atestam sua competência em gestão: entre elas está o ranking internacional: o Thedotgood (antigo NGO Advisor) por 3 anos seguidos (2022, 2023 e 2024).  Em 2023, pelo sétimo ano consecutivo, figura entre as 100 Melhores ONGs do Brasil, pelo Instituto O Mundo que Queremos (IOMQQ) e o Instituto Doar. 
Desde 2019 possui o selo ONG Transparente com conceito A+ (a nota mais alta concedida pelo Selo) que audita e reconhece as organizações da sociedade civil que seguem parâmetros internacionais de gestão e transparência e em 2018 foi eleita a melhor Organização de Assistência Social do país, ambas concedidas pelo Instituto Doar.  Em 2024, se tornou signatário do Pacto Global da ONU, além de receber o selo ONG Verificada, uma certificação independente, concedida pelo Instituto Doar – Certificadora Social, às organizações da sociedade civil que comprovam a adequação cadastral e contábil solicitada.

 

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CAROLINA NOGUEIRA SILVA
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