20/09/2021 às 09h10min - Atualizada em 20/09/2021 às 11h20min

As Aves da Noite, drama de Hilda Hilst, ganha palco virtual com direção de Hugo Coelho

A encenação passa em Auschwitz e traz os atores Marco Antônio Pâmio, Marat Descartes, Regina Maria Remencius, Rafael Losso, Davi Tápias, Marcos Suchara, Davi Tostes e Genézio de Barros.

SALA DA NOTÍCIA Eliane Verbena
https://verbenacomunicacao.blogspot.com/2021/09/as-aves-da-noite-drama-de-hilda-hilst.html
Fotos de Priscila Prade
Com direção de Hugo Coelho, o espetáculo As Aves da Noite, drama teatral escrito por Hilda Hilst, há 52 anos, tem estreia online pelo canal Curadoria Hilst no YouTube, nos dias 5, 6 e 7 de outubro (de terça a quinta, às 20h). Após sessões dos dois primeiros dias, o diretor e elenco participam de bate-papo com o público. Na sequência, a montagem segue em circulação pelos canais virtuais do Teatro Cacilda Becker, Teatro João Caetano, Teatro Paulo Eiró e Teatro Arthur Azevedo, sempre com acesso gratuito.

O enredo de As Aves da Noite parte da história real do padre franciscano Maximilian Kolbe que, em um campo de concentração nazista de Auschwitz, apresentou-se voluntariamente para ocupar o lugar de um judeu sorteado para morrer no chamado “porão da fome” em represália à fuga de um prisioneiro. Segundo o diretor Hugo Coelho, “esta é uma versão contemporânea do texto de Hilda. Não é uma peça sobre Auschwitz, partimos de Auschwitz, pois nosso lugar de fala não é o da reconstituição”.

No porão da fome, a autora coloca em conflito os prisioneiros condenados a morrer na cela: o Padre, o Carcereiro, o Poeta, o Estudante e o Joalheiro, que são visitados pelo Oficial da SS, pela Mulher que limpa os fornos e por Hans, o ajudante da SS. Na montagem, eles aparecem isolados, confinados em gaiolas como um signo, uma alusão à prisão onde a história se passa, mas também à nossa impossibilidade de contato físico, nesse momento de pandemia. “A primeira coisa que os governos totalitários fazem ao prender alguém é destituí-lo da dignidade humana e submetê-lo ao sofrimento extremado, e isso os nazistas fizeram com requintes inimagináveis de crueldade”, comenta o diretor.  Segundo ele, a proposta de concepção de Hilda Hilst é muito clara, colocando as personagens em estado de reflexão sobre suas próprias condições no confinamento. A leitura que a autora faz dos aspectos éticos e humanos passam por questionamentos sobre Deus, sobre o mal e sobre a crueldade.

Nos diálogos estão o embate entre a vida e o que lhes resta, os devaneios entre o desespero e o delírio. O Poeta declama como se morto estivesse, o Estudante sonha com outro tempo, o Joalheiro ainda lembra-se da magnitude das pedras, enquanto a Mulher é humilhada em sua condição inferior. O Carcereiro, mesmo sendo um condenado, ironiza a condição dos demais e os trata com escárnio; o SS os chama de porcos e os agride e menospreza, enquanto o estado de debilidade emerge da vida e da já não existência desses humanos subjugados.

O espetáculo foi idealizado pelo produtor Fábio Hilst para ser apresentado presencialmente, mas diante da pandemia da covid-19 precisou ser gravado em vídeo, 80 anos após a morte de Maximilian Kolbe, exatamente no momento em que o mundo vive uma experiência de confinamento. O diretor explica que para colocar a peça na tela, lançou mão da linguagem cinematográfica para trazer ao público a máxima aproximação possível do teatro. “A tela de vídeo não consegue reproduzir o fenômeno do teatro ao vivo, por isso um processo híbrido de criação nos ajuda a conjugar as linguagens. E temos a sorte de reunir um elenco de extrema grandeza; o talento desses atores é um pilar fortíssimo no resultado final do trabalho”.

O cenário, que traduz o cárcere com gaiolas humanas, foi concebido pelo diretor em conjunto David Schumaker. O figurino (de Rosângela Ribeiro) faz alusão aos uniformes de presidiários, reforçando a imagem do encarceramento. A iluminação (de Fran Barros) dá foco a cada personagem, reforça o clima denso e claustrofóbico do ambiente, ajudando na ideia de isolamento, inclusive contribuindo com a impossibilidade do contato físico durante a produção da peça. A trilha sonora (de Ricardo Severo) foi criada em sequências, a partir do material captado e da concepção das cenas. Severo, inclusive, musicou a letra de uma canção original do texto, que remete à tradição judaica, cantada pelas personagens.

Hugo Coelho afirma que o propósito do espetáculo é trazer à cena o discurso artístico poderoso e contundente de Hilda Hilst. “As Aves da Noite nos faz encarar toda a barbárie do poder, do domínio, do autoritarismo, das torturas nos porões das ditaduras. Auschwitz é uma ferida aberta na humanidade para a qual não há palavras que qualifique. Não podemos permitir que a violência e a barbárie sejam normatizadas ao longo da história. Por isso esta obra de extrema qualidade literária é tão importante para o momento em que vivemos”, finaliza o encenador.

Maximilian Kolbe morreu em Auschwitz, em 1941, e foi canonizado em 1982, pelo Papa João Paulo II. São Maximiliano é considerado padroeiro dos jornalistas e radialistas e protetor da liberdade de expressão.

FICHA TÉCNICA - Texto: Hilda Hilst (1968). Direção: Hugo Coelho. Elenco: Marco Antônio Pâmio (Pe. Maximilian), Marat Descartes (Carcereiro), Regina Maria Remencius (Mulher), Genézio de Barros (Joalheiro), Rafael Losso (Estudante), Davi Tápias (Poeta), Marcos Suchara (SS), Davi Tostes (Hans). Direção de produção: Fábio Hilst. Assistência de direção/produção: Fernanda Lorenzoni. Cenografia: Hugo Coelho e David Schumaker. Figurino e objetos de cena: Rosângela Ribeiro. Luz: Fran Barros. Música original e desenho de som: Ricardo Severo. Visagismo: Jaqueline Ramirez. Estagiário (elenco): Thiago Piacentini. Cenotecnia: Wagner José de Almeida. Serralheria: José da Hora. Pintura de arte: Alessandra Siqueira. Assistência/cenotecnia: Matheus Tomé. Confecção de figurino: Vilma Hirata e Natalia Hirata. Fotografia e operação de câmera: Richard Soares. Assistência/câmera: Vinícius Câmara. Som direto: Equipe Produções. Montagem: Carla Leoni. Design gráfico: Letícia Andrade. Mídias sociais: Tiago Vogel. Assessoria de imprensa: Eliane Verbena. Tradução em Libras: Karina Zonzini. Idealização/produção: Três no Tapa Produções Artísticas. Local de gravação: Teatro Arthur Azevedo (SP), julho de 2021. Apoio cultural: CliniMol Diagnóstico Molecular, Engenho Espaço de Criação e Curadoria Hilst. Realização: Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Governo do Estado de São Paulo, por meio do ProAC.

Espetáculo: As Aves da Noite
Estreia: dias 5, 6 e 7 de outubro. Terça a quinta, às 20h
Onde: Curadoria Hilst
Exibição online: Youtube/CuradoriaHilst (não ficará disponível após horário agendado)
Grátis. Duração: 75 min. Gênero: Drama. Classificação: 16 anos.
Haverá bate-papo com o público após sessões dos dias 5 e 6/10.

Temporada online | Com tradução em Libras.
Sextas e sábados, às 21 | Domingos, às 19h

Dias 15, 16 e 17 de outubro - Teatro Cacilda Becker
Facebook/TeatroCacildaBeckerSP | YouTube/TeatroCacildaBecker

Dias 22, 23 e 24 de outubro - Teatro João Caetano
Facebook/teatropopularjoaocaetano | YouTube/TeatroJoãoCaetanoSãoPaulo

Dias 29, 30 e 31 de outubro - Teatro Paulo Eiró
Facebook/teatropauloeiro

Dias 5, 6 e 7 de novembro - Teatro Arthur Azevedo
Facebook/teatroarthurazevedosp | YouTube/TeatroArthurAzevedoSP

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