Cine Clube Drum Brasil resgata a história dos Povos Guaranis nos territórios do Jaraguá em São Paulo

A Resistência Mbya e o futuro da Memória - Confira:

Por TAMYRIS TORRES
8 Min

Arquivo pessoal Cine Clube

A história da formação de São Paulo, frequentemente romantizada pela figura dos bandeirantes, esconde um capítulo de sistemática violência e escravização. No entanto, um projeto inovador está utilizando a tecnologia do século XXI para reescrever essa narrativa a partir do olhar das comunidades originárias e de jovens em situação de vulnerabilidade. O Cine Clube Drum Brasil apresenta os desdobramentos de sua imersão no território do Jaraguá, unindo o rigor do resgate histórico à linguagem da programação visual. O rastro de sangue no Jaraguá: O legado de Afonso Sardinha Segundo as Atas da Câmara de São Paulo, entre os séculos XVI e XVII, figuras como Afonso Sardinha (o Moço) foram os arquitetos da expulsão e do aprisionamento de comunidades Guaranis. No sopé do Pico do Jaraguá, na zona norte da capital, o nome de Sardinha está gravado na memória da exploração. Em seu casarão de taipa, o bandeirante utilizou mão de obra indígena escravizada em larga escala para o ciclo do ouro.
Obras como a do autor John Manuel Monteiro: Negros da Terra, mostra que as expedições lideradas por ele não buscavam apenas minérios, mas o "ouro vermelho": corpos indígenas capturados para o mercado de escravos. Essa prática gerou um choque direto com os jesuítas, culminando na expulsão dos inacianos de São Paulo em 1640, evidenciando a truculência dos sertanistas que hoje, ironicamente, são homenageados em monumentos contestados por historiadores devido ao genocídio e apagamento cultural promovido. Cine Clube Drum Brasil: Celebrando a Diversidade nos Territórios 2ceef0_WhatsApp%20Image%202026-03-18%20at%2018.10.21.jpeg Festival Jaraguá é Guarani com presença do projeto Cine Clube Drum Brasil 
É justamente contra esse silenciamento histórico que o projeto Cine Clube Drum Brasil se levanta. Nascido com o objetivo de atrair jovens — preponderantemente meninas, pretas e em situações de vulnerabilidade — para o mercado de trabalho do audiovisual, o projeto percorreu diversas etapas de curadoria histórica.
O percurso educativo homenageia pilares da resistência e diversidade:
  • Pessoas pretas: Através da figura icônica de Grande Otelo.
  • Mulheres: Na representatividade da direção de cinema de Adélia Sampaio.
  • Comunidade LGBTQUIAP+: Com foco em na primeira criação cinematográfica da nossa referência Adélia Sampaio.
Contudo, ao chegar na etapa do Festival Jaraguá é Guarani, o grupo descobriu algo "muito maior": um resgate histórico-cultural absolutamente ignorado nas escolas brasileiras. A atividade tornou-se um desdobramento direto da experiência vivida no festival, onde o projeto registrou em podcast a resistência dos povos historicamente expulsos do Pico do Jaraguá.
Realizado com o apoio da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas, do Ministério da Cultura, Governo do Estado de SP e viabilizado via Lei Paulo Gustavo, o Cine Clube fomenta a diversidade em áreas periféricas. Ao longo de sua trajetória, o projeto preparou a próxima geração de criativos brasileiros em locais como CEUs Heliópolis, Parque Bristol, Paz e Casablanca, incluindo ações parcerias no Cine Joia, celebrando parcerias futuras como na Fábrica de Cultura 4.0 em Osasco e encerrando agora sua jornada na Baixada Santista com o mesmo compromisso de impacto e transformação e agora com uma pesquisa própria, profunda e cultural.
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Ilha de podcast durante Festival Jaraguá é Guarani em parceria com o Cine Clube

O CEO da Drum Brasil, José Carlos Vieira Jr., enfatiza a importância ética e social de ações como a do Cine Clube:

“O projeto 'Cine Clube Grande Otelo à Adélia Sampaio: Celebrando a Diversidade nos Territórios' nasceu com o olhar de atrair jovens, preponderantemente meninas pretas em situações de vulnerabilidade, para o mercado de trabalho do audiovisual. Percorrendo as etapas do projeto, em uma ação no Festival Jaraguá e Guarani, estabeleceu-se um processo de curadoria histórica objetivando o levantamento de materiais para nossa última ação e integrar um importante pilar da diversidade: os povos originários. Iniciamos com os pilares de defesa e reflexão com a participação de pessoas pretas na figura de Grande Otelo, mulheres na figura da Adélia Sampaio e LGBTQIAP+ em suas primeiras criações cinematográficas. Porém, nesta etapa no Festival Jaraguá e Guarani, o que descobrimos foi algo que transcendeu ao nosso projeto: dar luz a um resgate histórico-cultural absolutamente ignorado em nossas escolas, estabelecemos a pesquisa de todo um roteiro e que ainda não podemos dizer, um roteiro original ou um roteiro adaptado, campo fértil para os desdobramentos para o audiovisual e obras cinematográficas. Realmente o projeto chegou ao seu propósito e destino!”.

A Resistência Mbya e o futuro da Memória Apesar da pressão urbana, os Guarani Mbya resistem na Terra Indígena Jaraguá, a menor do país. Para eles, o território é a Yvyrupa (mundo espiritual sem divisões). Atualmente, cerca de 700 pessoas vivem em seis Tekoas (aldeias): Ytu, Pyau, Ita Wera, Itakupe, Ita Edy e Yvy Porã, conforme levantamento do site jornalismojunior.com.br.
Viver cercado pelas rodovias Rodoanel, Bandeirantes e Anhanguera impõe desafios severos, como poluição sonora e doenças respiratórias. Ainda assim, a comunidade mantém o Nhandereko (jeito Guarani de ser). Como afirma o líder David Karai Popygua: "Não é sendo igual ao juruá [não indígena] que a gente vai aprender a viver", em entrevista ao mesmo site. A luta pela terra e o embate com a especulação A relação dos Guarani com a terra é espiritual, não econômica. No entanto, o território foi reduzido drasticamente ao longo dos séculos. Em 2015, uma vitória jurídica expandiu a área de 1,7 para 532 hectares, mas a decisão foi atacada pela Portaria 683/2017, que tentou reduzir a reserva para apenas 3 hectares sem estudos técnicos, segundo Le Monde Diplomatique.
A vida no Jaraguá é marcada pelo estigma. Relatos de líderes como Wagner "Luar" (advogado Sateré Mawé) e o professor Emerson Souza denunciam como o imaginário brasileiro ainda tenta "congelar" o indígena no passado ou forçá-lo à integração urbana como mão de obra barata.
Os Guarani do Jaraguá utilizam celulares, carros e internet, mas reforçam que esses objetos não alteram sua essência. Eles não se reconhecem como "brasileiros" no sentido de uma nação única que apaga suas origens, mas como o Povo Guarani. Entre o casarão de Afonso Sardinha e as telas de animação do Cine Clube Drum Brasil, a mensagem é clara: o Jaraguá não é apenas o ponto mais alto de São Paulo: é o coração pulsante de uma resistência que se recusa a ser apagada.
Um projeto com o apoio:
Governo do Estado de São Paulo, a Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas, o Governo Federal, o Ministério da Cultura e a Lei Paulo Gustavo
#LeiPauloGustavoSP  #tudoviracultsp  

Notícia distribuída pela saladanoticia.com.br. A Plataforma e Veículo não são responsáveis pelo conteúdo publicado, estes são assumidos pelo Autor(a): ALEX YAN DA COSTA MENDES
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