A rede de saúde de São Paulo conta com uma ferramenta essencial para a recuperação de dependentes químicos: as Unidades de Acolhimento (UA). Diferente de uma internação hospitalar, as 16 UAs espalhadas pela capital funcionam como residências transitórias para pacientes que fazem tratamento nos Centros de Atenção Psicossocial (Caps). O foco é a reinserção social e a conquista da autonomia para quem se encontra em situação de vulnerabilidade ou conflito familiar.
Na Unidade de Acolhimento Adulto (UAA) Boracea, na Barra Funda, o cotidiano é pautado pela coletividade. Os moradores organizam assembleias quinzenais para dividir tarefas como cozinhar e limpar, exercitando a autossuficiência necessária para o futuro retorno às famílias ou moradias independentes. Paralelamente, o tratamento clínico e psicológico continua nos Caps, em um diálogo constante entre as equipes para ajustar as estratégias de redução de danos.
O processo de ressocialização inclui o encaminhamento para cursos do Programa Operação Trabalho (POT) e vagas de emprego via Cate, além de passeios culturais pela cidade. "O objetivo é propor novos interesses esportivos e artísticos que proporcionem prazer sem os prejuízos do vício", explica Leandro Carlos Augusto, gerente da UAA Boracea. Para ele, as recaídas são tratadas como parte do processo: "Mostramos que, se houve um deslize, vamos nos levantar juntos".
Um exemplo de superação é Getúlio Aparecido Dias Bernardes, de 50 anos. Após viver na rua devido ao alcoolismo, ele reencontrou na UAA e no Caps AD III Butantã a paixão pelo desenho. Hoje, premiado em concursos de arte, ele utiliza o talento para reconstruir sua autoestima e planejar o retorno ao mercado de trabalho. Histórias como a de Getúlio e a de ex-pacientes que retornam apenas para visitar as roseiras que plantaram na unidade mostram que o cuidado humanizado é o caminho para traçar novos voos.