O aumento do número de novos casos de câncer pelo mundo e as perspectivas alarmantes para a próxima década, impulsionaram como nunca as pesquisas, não apenas relacionadas a novas terapias, medicamentos e tecnologias, mas principalmente para identificar marcadores clínicos que ajudem a diagnosticar precocemente pessoas em maior risco, inclusive, sugerindo formas de prevenção da doença em muitos casos.
Entre os estudos que se destacaram no último ano, estão aqueles que investigam a associação entre a microbiota intestinal (conjunto de bactérias que habitam nosso organismo) e doenças consideradas crônicas, como diferentes tipos de câncer. É o caso da pesquisa publicada na revista científica Nature, com participação de pesquisadores do A.C.Camargo Cancer Center que trouxe novos caminhos para ajudar a entender o salto crescente de diagnósticos de câncer colorretal, especialmente adultos jovens.
Avaliando pacientes de 11 países, o estudo identificou mutações mais frequentes em pacientes jovens, associadas à alta presença de uma substância produzida por bactérias intestinais (colibactina). A pesquisa mostrou que essa mutação era 3 vezes mais comum em pacientes com menos de 40 anos. “Essa descoberta pode ser um primeiro passo para indicar fatores de correlação entre a manifestação da doença e as tendências de consumo e hábitos alimentares contemporâneos. Estamos olhando aqui para pacientes expostos cada vez mais cedo e em maior quantidade a alimentos ultraprocessados e industrializados”, explica o Dr. Samuel Aguiar, líder do Centro de Referência em Tumores Colorretais do A.C.Camargo.
Na mesma linha de análise, uma pesquisa americana publicada na revista Gut Microbes, no fim de 2025, também reforçou que a exposição precoce a bactérias intestinais produtoras de colibactina pode imprimir mutações que aumentam o risco de câncer colorretal mais tarde na vida. Ao analisar amostras de bebês de até dois anos de idade, o estudo constatou uma prevalência extremamente alta de substâncias produzidas por essas bactérias em mais de 50% dos bebês, sugerindo que a colonização pode ser normal durante o desenvolvimento do microbioma na primeira infância, mas que precisa ser acompanhada ao longo da vida para avaliar o aumento dessa colônia de bactérias e rastrear maior predisposição a mutação que leva ao desenvolvimento de câncer.
Especialistas afirmam ainda que a regulação da microbiota intestinal pode ter influência, inclusive, durante o tratamento do câncer. Evidências sugerem que a presença de uma bactéria chamada “Akkermansia muciniphila” no microbioma, pode estar ligada a melhor resposta a tratamentos como a imunoterapia. Já outro estudo da Universidade do Texas, aponta o impacto da alimentação na microbiota e nos efeitos colaterais da imunoterapia. Pacientes expostos a uma dieta rica em fibras apresentaram menos efeitos adversos e melhor resposta à terapia contra o câncer em comparação com aqueles que seguiam uma alimentação saudável padrão, o que era ainda mais evidente quando comparado a pacientes com alimentação de baixo valor nutricional.
“É importante ressaltar que cerca de 90% dos casos estão associados ao estilo de vida e fatores ambientais, enquanto apenas 10% têm origem genética. Por essa razão, para prevenir tumores colorretais é fundamental evitar o consumo de embutidos, bebidas açucaradas e o excesso de carne vermelha, adotar uma alimentação equilibrada (com frutas, verduras, legumes e cereais), praticar exercício físicos, não ingerir bebidas alcoólicas e não fumar. Mudanças simples de hábitos podem diminuir consideravelmente os risco de câncer e colaborar para desfechos clínicos mais positivos”, afirma o oncologista.
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BRUNA ROBERTI ALVES
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