Ganho de peso e disfunção sexual levam pacientes a abandonar tratamento para depressão, apontam estudos

Nova molécula, recém-chegada ao Brasil, apresenta baixa interferência no desempenho sexual e no ganho de peso¹

ANA CAROLINA MARQUES GOMES
02/12/2025 11h57 - Atualizado há 1 semana

Ganho de peso e disfunção sexual levam pacientes a abandonar tratamento para depressão, apontam estudos
Divulgação
Dezembro de 2025 - Cerca de 15,7% dos pacientes com depressão interromperam o tratamento sem orientação médica em um período de 12 meses, segundo um estudo publicado em 2024 com base em dados da Organização Mundial de Saúde². Alguns dos principais motivos são ganho de peso e disfunção sexual. Apesar dos avanços na abordagem da saúde mental nos últimos anos, os efeitos adversos ainda assustam muitos pacientes³. Mas uma nova geração de antidepressivos pode minimizar o impacto dos efeitos adversos relacionados ao ganho de peso e disfunção sexual4.

Um exemplo é a vilazodona, uma molécula inovadora no tratamento da depressão com sintomas de ansiedade5 e recém-chegada ao Brasil6. A vilazodona age de forma diferente de outros antidepressivos: a molécula combina dois mecanismos que auxiliam nos efeitos do tratamento e, ao mesmo tempo, reduzem a incidência de alguns efeitos adversos comuns, como ganho de peso e disfunção sexual. Isso acontece porque o medicamento atua em receptores específicos do cérebro ligados à serotonina, regulando o equilíbrio dos neurotransmissores5,7.


Assim, a molécula favorece o aumento da serotonina8 e, indiretamente, também melhora a atividade da dopamina no córtex pré-frontal, região relacionada ao humor, motivação e bem-estar1,9. Estudos também indicam que a vilazodona apresenta baixa interferência no desempenho sexual e no aumento de peso10,11. Por isso, pode ser uma alternativa terapêutica para pacientes que sofrem com esses efeitos adversos ou já têm histórico de abandono do tratamento7.

Os efeitos adversos não são uma preocupação recente entre os pacientes com depressão. Em 2005, um estudo feito com 350 pacientes nos Estados Unidos apontou que 20% já relatavam perda de interesse sexual e 27% ganho de peso como motivos de não adesão ao tratamento. Entre os principais efeitos adversos relatados como causa de abandono do tratamento, estavam: desconforto com a forma como o medicamento afetava o bem-estar geral (37%), seguido por perda de interesse sexual (23%), cansaço (18%) e ganho de peso (16%)12.

Especialistas alertam que a interrupção do tratamento compromete não só a melhora dos sintomas, mas também aumenta o risco de recaídas e agravamento do quadro12. O ideal é que qualquer ajuste na medicação seja feito com acompanhamento médico. A chegada de novas opções de antidepressivos amplia o arsenal terapêutico disponível, permitindo intervenções mais individualizadas, com impacto positivo na qualidade de vida dos pacientes13,14.

“Muitos pacientes abandonam o tratamento ao perceber efeitos adversos, como ganho de peso ou disfunção sexual, o que compromete a eficácia a longo prazo e a estabilidade dos sintomas. A boa notícia é que hoje temos alternativas mais modernas, que minimizam os efeitos colaterais e apresentam bons resultados aos pacientes”, explicou o psiquiatra Felipe Lobo, médico consultor da Libbs e supervisor do ambulatório de transtornos de personalidade da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

O tema tem especial relevância no Brasil, país que lidera a prevalência mundial de transtornos de ansiedade e ocupa o 5º lugar em casos de depressão, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS)15. Além disso, a sobreposição entre os transtornos é alta: cerca de 85% dos pacientes com depressão também apresentam sintomas de ansiedade clinicamente significativos, enquanto até 90% dos ansiosos convivem com algum sintoma depressivo16

Referências:

1. Stahl SM. Psicofarmacologia: Bases neurocientíficas e aplicações práticas. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2022.

2. Kazdin AE, Harris MG, Hwang I, Sampson NA, Stein DJ, Viana MC, et al; WHO World Mental Health Survey collaborators. Patterns, predictors, and patient-reported reasons for antidepressant discontinuation in the WHO World Mental Health Surveys. Psychol Med. 2024;54(1):67-78.

3. Solmi M, Miola A, Croatto G, Pigato G, Favaro A, Fornaro M, et al. How can we improve antidepressant adherence in the management of depression? A targeted review and 10 clinical recommendations. Braz J Psychiatry. 2021;43(2):189-202.

4. Carvalho AF, Sharma MS, Brunoni AR, Vieta E, Fava GA. The Safety, Tolerability and Risks Associated with the Use of Newer Generation Antidepressant Drugs: A Critical Review of the Literature. Psychother Psychosom. 2016;85(5):270-88.

5. Stahl SM. Mechanism of action of the SPARI vilazodone: serotonin 1A partial agonist and reuptake inhibitor. CNS Spectr. 2014;19(2):105-9.

6. ANVISA. Consultas. 2025 [internet]. [acesso em 20 ago 2025]. Disponível em: https://consultas.anvisa.gov.br/#/medicamentos/

7. Schwartz TL, Siddiqui UA, Stahl SM. Vilazodone: a brief pharmacological and clinical review of the novel serotonin partial agonist and reuptake inhibitor. Ther Adv Psychopharmacol. 2011;1(3):81-7.

8. Chauhan M, Parry R, Bobo WV. Vilazodone for major depression in adults: pharmacological profile and an updated review for clinical practice. Neuropsychiatr Dis Treat 2022;18:1175-93.

9. Barnes NM, Ahern GP, Becamel C, Bockaert J, Camilleri M, Chaumont-Dubel S, et al. International Union of Basic and Clinical Pharmacology. CX. Classification of receptors for 5-hydroxytryptamine; pharmacology and function. Pharmacol Rev. 2021;73(1):310-520.

10. Mathews M, Gommoll C, Chen D, Nunez R, Khan A. Efficacy and safety of vilazodone 20 and 40 mg in major depressive disorder: a randomized, double-blind, placebo-controlled trial. Int Clin Psychopharmacol. 2015;30(2):67-74.

11. Bathla M, Anjum S, Singh M, Panchal S, Singh GP. A 12-week Comparative Prospective Open-label Randomized Controlled Study in Depression Patients Treated with Vilazodone and Escitalopram in a Tertiary Care Hospital in North India. Indian J Psychol Med. 2018;40(1):80-85.

12. Ashton AK, Jamerson BD, L Weinstein W, Wagoner C. Antidepressant-related adverse effects impacting treatment compliance: Results of a patient survey. Curr Ther Res Clin Exp. 2005;66(2):96-106.

13. Rickels K, Athanasiou M, Reed C. Vilazodone, a novel, dual-acting antidepressant: current status, future promise and potential for individualized treatment of depression. Per Med. 2009;6(2):217-224.

14. Chen J, Hu S. Individualized Treatment Strategy for Depressive Disorder. Adv Exp Med Biol. 2019;1180:219-232.

15. World Health Organization (WHO). Depression and other common mental disorders: global health estimates [internet]. 2017. [Acesso em 24 jun 2025]. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/depression-global-health-estimates.

16. Möller HJ, Bandelow B, Volz HP, et al. The relevance of 'mixed anxiety and depression' as a diagnostic category in clinical practice. Eur Arch Psychiatry Clin Neurosci. 2016;266(8):725-736.
 

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