Amizade tributada

*Guilherme Frizzera

JULIA ESTEVAM
21/02/2025 18h12 - Atualizado há 1 mês
Amizade tributada
Banco Uninter

A recente imposição de tarifas de 25% sobre as importações de aço pelos Estados Unidos, determinada pelo governo de Donald Trump, afeta diretamente diversos exportadores globais. No caso da Argentina, a medida impacta um setor estratégico da economia e expõe a fragilidade de uma política externa conduzida por alinhamento ideológico e servilismo diplomático. Para um país cujo presidente mimetiza os discursos e posicionamentos de Trump, a resposta norte-americana é um balde de água fria. Javier Milei, que se apresentou como um fiel seguidor do presidente dos EUA, descobre que a geopolítica não funciona com base em amizades pessoais ou admiração política. 

Milei não está sozinho nessa ilusão. No Brasil de Jair Bolsonaro, o ex-presidente seguiu pelo mesmo caminho ao buscar aproximação irrestrita com Trump, chegando ao ponto de declarar publicamente um "I love you" em um encontro internacional. Bolsonaro apostou no alinhamento com Washington como um pilar de sua política externa, na esperança de que isso traria vantagens econômicas ou políticas. No entanto, o Brasil não colheu benefícios tangíveis desse servilismo. Durante seu governo, os EUA não facilitaram acordos comerciais relevantes, não abriram novos mercados significativos para produtos brasileiros e, ao contrário, impuseram barreiras às exportações nacionais sempre que seus interesses assim determinavam. A ilusão da "amizade entre nações" se desfez na prática da política realista. 

A Argentina também possui precedentes de apostas fracassadas nesse tipo de relação diplomática submissa. Durante o governo de Carlos Menem, o então chanceler Guido Di Tella cunhou a expressão "relações carnais" para descrever o alinhamento incondicional da Argentina com os Estados Unidos. Esse período foi marcado por privatizações desenfreadas, desregulação financeira e uma política econômica que atendeu mais aos interesses externos do que às necessidades do país. O resultado foi a catastrófica crise econômica dos anos 2000, quando o modelo baseado na dolarização da economia desmoronou, levando a Argentina à moratória da dívida e ao caos social. Como bem destacou o ex-presidente José Sarney ao analisar as relações de submissão quase erótica da Argentina aos EUA, Menem “ofereceu-se de todas as maneiras, mas não quiseram levá-lo para o leito nupcial”. 

Agora, Milei retoma esse roteiro, apostando que sua fidelidade ideológica a Trump e às ideias de ultraliberalismo o colocará em uma posição privilegiada no cenário internacional. A decisão de Trump de taxar o aço argentino mostra que essa expectativa é ilusória. Os Estados Unidos tomam decisões baseados em seus interesses estratégicos, não em relações de afeto político. Se isso já era evidente, agora se torna inegável: Milei pode elogiar Trump publicamente, imitar seus gestos e defender suas agendas, mas nada disso impede que Washington imponha medidas que prejudiquem diretamente a economia argentina. 

Ao abdicar de uma diplomacia pragmática e independente, países como a Argentina se colocam em uma posição de vulnerabilidade. Quando a realidade dos interesses nacionais entra em cena, a lealdade ideológica se torna irrelevante. Não deixa de ser irônico que os setores que mais defendem a lógica do mercado — onde nada deve ser dado de graça — sejam os mesmos que se surpreendem ao descobrir que submissão gratuita não gera recompensa. No xadrez da política internacional, onde cada peça joga por seus próprios interesses, o servilismo não apenas não garante proteção, como muitas vezes antecipa o xeque-mate contra quem se ajoelha no tabuleiro.  

 
*Guilherme Frizzera é doutor em Relações Internacionais e coordenador do curso de Relações Internacionais da Uninter. 


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