A memória do bolso

*Almir Pazzianotto Pinto

O excelente artigo “Páscoa eleitoral de Lula”, do jornalista José Roberto de Toledo (O Estado, 20/4/2017, A6), analisa as razões de o petista apresentar o maior eleitorado cativo entre possíveis candidatos à presidente em 2018.
O jornalista apoia-se em recentes pesquisas de opinião pública para demonstrar a dianteira do ex-presidente nesta fase de estudos e preparação, contra pré-candidatos como Marina Silva, José Serra, Joaquim Barbosa, Geraldo Alckmin, Aécio Neves, Ciro Gomes, Jair Bolsonaro, João Dória.
Mais do que as pesquisas mencionadas, sujeitas a erros e flutuações, impressionou-me o argumento segundo o qual o “ex-presidente renasceu por três motivos: governo Temer, a memória de bolso e, paradoxalmente, a Lava Jato”.
“Quanto pior a avaliação do governo Michel Temer, maior fica o capital político acumulado de Lula”, escreve José Roberto de Toledo. A comparação parece-me inevitável. O eleitorado popular, avesso à política e enojado diante do que vê e ouve, antes de decidir em quem votar consultará o bolso, olhará para o desemprego e levará em conta o aumento do custo de vida.
Quem argumenta coloca-se em posição de inferioridade, disse alguém. Argumentar com quem se encontra desempregado, ganha minguada aposentadoria ou pensão, perdeu o convênio médico, tem o aluguel e as prestações atrasadas ou quitadas com pesados sacrifícios, mais do que inútil será ridículo. 
“A Lava Jato acabou por nivelar o campo da corrupção”, adverte o articulista. “A elite política do País sob investigação”, é o título da matéria de O Estado, na edição de 12 de abril, página A10. Basta olhar as fotografias e os nomes de ministros, senadores, governadores, deputados federais, prefeitos, para nos darmos conta de que poucos entre aspirantes á presidência da República escaparam à peneira das delações.
Luís Inácio Lula da Silva está mais enredado do que os demais acusados. Nos depoimentos é repetidamente citado como cérebro e comandante da maior rede de corrupção da História brasileira. Chegará ileso ao ano que vem? É a dúvida que aflige possíveis adversários. Se chegar e disputar, o povo decidirá de maneira pragmática. Entre os candidatos escolherá aquele que lhe é mais familiar ou em quem ainda acredita. 
Vejam o exemplo de Getúlio Vargas. Despojado pelos militares da presidência da República no golpe de 29 de outubro de 1945 e confinado em São Borja, no distante interior do Rio Grande do Sul, com uma carta aos trabalhadores elegeu presidente da República o general Eurico Dutra. Numa época em que as comunicações eram precárias, sem deixar a fazenda elegeu-se senador pelo Rio Grande do Sul e São Paulo, e deputado federal pelo Rio Grande do Sul, São Paulo, Distrito Federal, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia e Paraná, como permitia a legislação da época (Dicionário Histórico-Biográfico, Ed. FGV, RJ, 2ª Ed., 2001, vol. V, pág. 5944). Autor da Consolidação das Leis do Trabalho, com a qual resgatou os trabalhadores da exploração a que eram submetidos no inicio da industrialização, Vargas voltou à presidência aos 67 anos em janeiro de 1951. Na iminência de ser mais uma vez deposto, suicidou-se em 24/8/1954. Deixou carta-testamento que reverteu a crise política e assegurou a eleição de Juscelino Kubitscheck e João Goulart.
Os latino-americanos adoram cultuar os mortos. Vejam-se os casos de Juan Domingo Perón (1895-1974) e Carlos Gardel (1890-1935). O peronismo segue sendo o grande eleitor argentino e Gardel canta cada vez melhor, segundo os admiradores do tango.
Longe estou de comparar o gênio de Vargas com o oportunismo de Lula. São personalidades e caracteres radicalmente opostos. Nenhuma vaga semelhança há entre ambos. Não se lhes pode negar, entretanto, que nas duas vezes em que se elegeram contaram com o decisivo apoio das camadas populares. O regime democrático tem por fundamento a soberania popular, “exercida pelo sufrágio universal e pelo voto direto e secreto, com valor igual para todos”, prescreve a Constituição no art. 14. Valessem os votos do Jardim América mais do que os sufrágios da favela de Paraisópolis não haveria democracia, mas regime aristocrático.
As eleições presidenciais continuarão sendo decididas pela economia e pelas esperanças. Dos 13,5 milhões de desempregados e 12 milhões de subocupados, quantos terão recuperado o emprego perdido na crise dos últimos 4 anos? É impossível responder. O Partido dos Trabalhadores está em frangalhos, mas os demais partidos, como o PSDB, o PMDB, o DEM, vivem igual situação. Como observa José Roberto de Toledo, “A Lava Jato acabou por nivelar o campo da corrupção. Se todos são moralmente iguais, o custo-benefício favorece Lula.”
A situação é desconfortável. Sob a pressão de monumental dívida pública, Michel Temer sente-se obrigado a adotar medidas impopulares como a Reforma da Previdência. A maioria dos políticos conhecidos foi remetida à vala-comum. São apenas 16 meses até as  eleições. Lá pelo mês de maio as campanhas ganharão as ruas. Muitas surpresas nos aguardam. Se Lula puder ser candidato, surgirá alguém capaz de derrotá-lo? É a pergunta que paira no ar.
*Professor, doutor, ex-ministro e ex-presidente do Tribunal Superior do Trabalho

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